A crise no mercado fonográfico que tirou nomes consagrados do elenco das decadentes gravadoras multinacionais tem refletido não só na venda de CDs, mas na evasão de público dos grandes shows. Gal Costa e Caetano Veloso, por exemplo, cantaram recentemente na cidade com várias cadeiras vazias na platéia. Pela campanha promocional do CD ''Vaidade'', com anúncios de página inteira nos principais jornais e chamadas no rádio, o cantor e compositor Djavan parece não temer qualquer aviso de tempestade. Mais do que tarimbado no palco, ele inicia hoje, em São Paulo, a turnê de lançamento do disco.
Djavan é daqueles ídolos cujos shows viraram celebrações interativas, com a participação excedente da platéia. Especialmente do público feminino, que vê nele um ícone sexual. Embora não admita tal virtude, ele sabe como provocar a libido da platéia, aliando atitude cênica à expressiva sensualidade de algumas de suas canções.
Nem sempre foi assim. ''Sou artista de uma época que tinha o banquinho e violão como símbolo. Minha apresentação era baseada nisso. Um dia me enchi de ficar preso ali, restrito àquele espaço. Larguei o banquinho e o instrumento, peguei o microfone na mão e passei a percorrer todos os espaços'', lembra o cantor. Foi a partir do disco ''Bicho Solto'', de 1998. ''Isso se incorporou à minha cena de palco, comecei a curtir dançar, a perceber que tinha capacidade de dominar o palco dessa forma, dançando, caminhando. E isso começou a produzir um efeito positivo na platéia. Então, o que gera isso nas pessoas vem do fato da necessidade que senti de mexer mais, não de outra coisa.''
Positivo até certo ponto. Houve um estágio em que o clima de ''djavanmania'' passou dos limites. Quem já viu, sabe. É um tal de a mulherada se esgoelar incessantemente proferindo coisas do tipo ''gostoso'', ''lindo'', ''eu te amo'', e por aí vai. Ou então cantar e gritar a ponto de encobrir a voz do cantor, pouco importando se quem pagou foi para ouvi-lo. Quem quiser conferir, está tudo registrado no bem-sucedido álbum duplo ao vivo, lançado em 1999, com 1,8 milhão de cópias vendidas.
Ninguém duvida de sua popularidade, conquistada com exemplar administração de talento. Agora é hora de testar o cacife não do artista, mas do empresário, que contou com patrocinadores de peso para colocar o show em pé. Diferentemente dos demais que forçosamente migraram para a produção independente, ele é o primeiro músico da linha de frente da MPB a encarar o desafio de bancar uma gravadora própria, a Luanda Records. Isso inclui desde o financiamento, a produção e gravação do disco, até o marketing e o sempre penoso trabalho de distribuição.
Djavan decidiu assumir isso tudo de uma vez e ainda compôs sozinho as 12 faixas de ''Vaidade'', que teve tiragem inicial de 75 mil exemplares. O Djavan que lançou mão de um contrato de 22 anos com a Sony Music mudou para continuar sendo ele mesmo. ''Queria que a coisa se mantivesse no mesmo nível de antes e estamos conseguindo'', diz o cantor. ''É um mergulho no buraco negro. Isso é bacana, é uma coisa que me instiga, me estimula a criar. Gosto de ser testado, a vida inteira fui testado. Nunca fiz música visando ao lucro, foi sempre visando ao meu prazer pessoal, minha evolução musical, minhas descobertas, jamais pensando no que vai ser a tendência do mercado. Foi nesse sentido que sempre lidei com música.''
Os novos ares não trazem, contudo, mudanças estéticas. Aquilo que os fãs mais apreciam nele continua intacto: canções buriladas e de assimilação natural, letras que tratam de relacionamentos, harmonias sofisticadas, vocal melancólico, fusão inimitável de ritmos.

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