Curitiba - Tudo leva a crer que foi pura coincidência. A Fundação Cultural de Curitiba (FCC) queria desenvolver um projeto que tivesse como foco central o incentivo de pesquisas sobre o movimento, incluindo o teatro e a dança. Na mesma época, a companhia Chamecki&Lerner radicada nos Estados Unidos e formada pelas bailarinas Andréa Lerner e Rosane Chamecki queria voltar para Curitiba e decidiu mandar um projeto para fundação.
O projeto foi aceito pela FCC e começa as suas atividades hoje na centenária e recém-reformada Casa Hoffmann, no Largo da Ordem. O espaço foi restaurado para abrigar o Centro de Estudos do Movimento (CEM), que terá consultoria da companhia até o final do ano. Andréa Lerner é filha do ex-governador Jaime Lerner (PFL), aliado político do prefeito de Curitiba, Cassio Taniguchi (PFL). Rosane Chamecki é prima do presidente da FCC, Cassio Chamecki.
Abre as portas do projeto uma mostra de vídeo comentada pelo carioca Leonel Brum. De hoje até sábado serão analisados o Programa Dança Brasil Painel Brasil e o programa Dançativa, que traçam um panorama da dança no País. Na próxima semana começam as oficinas que serão ministradas por profissionais dos Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra, além de atores e coreógrafos nacionais. Até agosto serão ofertados 13 cursos, programados pela companhia Chamecki Lerner.
A escolha da companhia para dirigir o espaço causou um certo mal-estar na classe artística, que não entendeu os critérios adotados pela fundação para determinar a curadoria da Casa Hoffmann. Chamecki estava em Brasília e não pôde atender a reportagem para falar sobre o assunto.
A assessoria de imprensa da Fundação informou que a dupla foi escolhida porque atendia principalmente o critério de ser uma companhia reconhecida dentro e fora do País e com um trabalho relevante na área. A assessoria também esclareceu que o fato do sobrenome da bailarina escolhida e do presidente da FCC terem o mesmo sobrenome é coincidência. Segundo a fundação, Cássio e Rosane são ''primos distantes''.
Para realizar o trabalho de curadoria, que começou no mês passado com a definição da agenda de cursos e vai até o final do ano, a companhia vai receber R$ 100 mil, segundo o Contrato de Prestação de Serviços nº 495/03, publicado no Diário Oficial do Município do dia 13 de maio de 2003. Isso siginifica que durante sete meses, a dupla vai receber cerca de R$ 9 mil mensais, salário comparado a um secretário estadual, que ganha em torno de R$ 9,5 mil e superior a um vereador de Curitiba, que recebe R$ 6,9 mil bruto.
Radicadas há mais de dez anos em Nova York, Andréa e Rosane vão dividir a curadoria do espaço em Curitiba com compromissos pré-agendados fora do Brasil e que implicam em apresentações na Alemanha e Estados Unidos. Andréa Lerner adianta que a companhia também está tentando patrocínio para se apresentar no Brasil, em novembro.
Sobre o projeto didático, ela explica: ''A idéia é que a programação do centro não seja fechada em uma estética definida e ofereça um leque de discussões'', ressalta. Ela salienta que a intenção do espaço não é formar bailarinos e sim ''criadores''. ''Nos cursos, as pessoas serão estimuladas a criar uma nova linguagem, a desenvolver um diálogo do que pode vir a ser o movimento'', afirma.
Uma das dicas de Andréa é o curso que começa já na próxima segunda, ministrado pela inglesa Sarah Michelson. A coreógrafa trabalha atualmente em Nova York e no seu currículo inclui parcerias com o bailarino Mikhail Barishnikov. Sarah vai ministrar duas oficinas, a primeira começa já na próxima segunda-feira e encerra no dia 4 de julho. A segunda, acontece entre os dias 7 e 11 de julho. Ambas tratam sobre o medo do palco e têm o objetivo de criar uma performance sobre o tema, mas a segunda oficina é dirigida apenas para adolescentes.
Além de Sarah, outras figuras salientes vão fazer parte do quadro de professores do centro, como os atores Enrique Diaz e Mariana Lima (do Grupo Vertigem), que vão desenvolver num workshop de dez dias as técnicas utilizadas pela Siti Company, também de Nova York , dirigida por Anne Bogart.
Os outros ministrantes dos cursos que acontecem até agosto são Michel Groisman (Brasil); Thomas Plischke (Alemanha); Nakano Kurihara (Japão) e Lia Rodrigues (Brasil). A partir de setembro, estão sendo programadas oficinas com Ko Murobushi (Japão); Roberto Pereira (Brasil); Vera Monteiro (Portugal), entre outras, além da Mostra ''Movimento em solo a dança de Isadora Duncan'', ainda sem data definida.
A Fundação ainda não divulgou o preço das oficinas. Na terça e quarta-feira aconteceram audições, com banca formada pelo ator Luis Mello e pela coreógrafa Andréa Lerner para escolher sete bolsistas que vão poder frequentar gratuitamente todos os wokshops. A banca foi formada por Andréa Lerner e pelo ator Luis Melo. De acordo com a fundação, mais de 50 pessoas se inscreveram. Os nomes dos contemplados devem ser conhecidos hoje e além da bolsa, eles também vão receber incentivo de R$ 1,5 mil cada um para apresentarem um trabalho de conclusão dos cursos.
Serviço - Inauguração do Centro de Estudos do Movimento, na Casa Hoffmann (Claudino dos Santos, s/n), no Largo da Ordem. Mostra de vídeo comentada de amanhã à sábado, sempre das 17h30 às 20h30, com entrada franca. Os cursos ministrados no espaço começam na próxima segunda-feira. Informações pelo telefone (41) 321-3313.

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