Movimentos delirantes
Simone Mattos
De Curitiba
Superação é a palavra que melhor define a nova fase do Balé Teatro Guaíra, dirigido agora por Suzana Braga. A mini-temporada do espetáculo De Corpo e Alma, que encerrou no domingo, impressionou, comoveu, arrancou aplausos entusiasmados e até lágrimas discretas em alguns dos milhares de espectadores que praticamente lotaram o Guairão nos quatro dias de apresentações.
As duas coreografias apresentadas foram impecáveis. Tango, de Eduardo Ibañez, abriu o espetáculo contagiando o público com a bela canção El Dia En Que Me Quieras, de Carlos Gardel e Le Pera.
Em 30 minutos, com muita sensualidade e precisão, os bailarinos contaram a história do tango, desde a época em que mulheres eram proibidas de dançar e os pares eram formados exclusivamente por homens.
A cronologia obedecida pela coreografia era acompanhada pela trilha sonora, que ia dos primórdios do tango até a atualidade. De Gardel e Villaldo, o espetáculo caminhou para Astor Piazzolla e Omar Torres. Os figurinos e a cenografia, que podem ser considerados perfeitos, tiveram a assinatura de Rosa Magalhães.
Ao final de Tango, o público teve a impressão de que não era preciso mais nada e que o espetáculo poderia encerrar ali mesmo. Mero engano. O melhor ainda estava por vir. Após o rápido intervalo de 15 minutos, a coreógrafa paulista Roseli Rodrigues surpreendeu pela criatividade, sensibilidade e qualidade indiscutíveis da peça Segundo Sopro.
Ao abordar os elementos vento, pedra e água e as quatro estações, a coreógrafa abusou de efeitos especiais simples e emocionantes. A origem da vida, a partir da separação do ar e da água, foi contada com movimentos exatos.
A bailarina que, num solo individual, se despoja com os cabelos soltos e a roupa esvoaçante numa espécie de poeira branca, provocando um efeito único, atingiu um dos pontos máximos do espetáculo..
Mas foi o encerramento da apresentação mais precisamente os últimos sete minutos que levou o público ao delírio. Todo o elenco foi surpreendido por uma chuva torrencial que inundou o palco, dando ainda mais leveza aos bailarinos, que brincavam e comemoravam a chuva com uma alegria contagiante, permitindo uma beleza plástica de movimentos nunca antes vista.
Para completar, a coreografia de Segundo Sopro foi acompanhada pela excepcional trilha sonora especialmente composta por Fábio Cardia. Ele trabalhou com os elementos ar, fogo, terra e água para criar uma obra simples e essencial.





