Movimentos delicados e uma dura disciplina
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sexta-feira, 29 de agosto de 2003
Ana Setti Rosa<br>Reportagem Local 
Quem vê no palco a bailarina de gestos suaves, incrível flexibilidade e requebros sensuais, ou se lembra dela, quando chegou a Londrina, em 1996, grávida de 5 meses e mesmo assim, até para valorizar os benefícios de sua arte, disposta a dar aulas de dança do ventre, não imagina que Rhamza Alli seja engenheira metalúrgica, formada pela Universidade de São Paulo (USP). É claro que essa formação, complementada ainda por outra graduação, em Marketing, foi resultado de pressão da família, de raízes sírias, que nunca acreditou ser possível fazer da dança uma profissão. Rhamza aceitou as exigências familiares durante algum tempo, mas formada em balé clássico, que começou aos 5 anos de idade, e fluente em inglês, enquanto estudava engenharia, ganhava seu próprio dinheiro dando aulas do idioma e dançando em restaurantes e casas de chá de São Paulo. O rendimento, no entanto, não era muito e dava apenas para fazer um único cartão de apresentação, que estampava os dizeres intrigantes: Rhamza Alli, professora de inglês e dançarina árabe.
Essa complementação de rendimentos continuou, mesmo depois que iniciou um trabalho na área de marketing e ainda incluiu, em sua vida já agitada, aulas de natação três vezes por semana. O resultado de tamanho esforço em direções tão diferentes foi um esgotamento físico e nervoso, que a deixou de cama e a fez baixar o peso para assustadores 42 quilos. Recuperada, depois de um longo tratamento em Bauru, onde a família mora, voltou para seu trabalho em São Paulo. Não por muito tempo. Logo, recebeu um convite para integrar o Trio Nefertiti de danças árabes e rumar para a Europa, para três meses de apresentações, que se prolongaram por um ano. Abandonei tudo, conta Rhamza, o que mudou seu destino, tendo a dança, desde então, passado a ser sua fonte primeira de realização pessoal e profissional.
Em 1996, nova reviravolta em sua vida. Decidida a sair da cidade grande, optou, junto com o marido, por Londrina, que a encantara, numa visita anterior, por sua diversidade de manifestações culturais. Chamando a atenção por dar aulas grávida até o último dia, antes do parto, Rhamza mostrou, na prática, para suas surpresas alunas, um dos maiores benefícios da dança árabe, que no Oriente Médio tem o significado de um ritual de passagem, apresentando a menina, depois de sua primeira menstruação, ao mundo adulto. De acordo com Rhamza, os movimentos da dança árabe fortalecem os músculos internos das coxas e do baixo ventre, o que é muito útil na gestação e no parto, e que ajuda até mesmo a minimizar a dor das cólicas menstruais. Tudo isso de forma agradável, prazerosa e bonita. Antes da primeira menstruação, no entanto, a dança do ventre não deve ser ensinada às meninas, alerta, pois mexe muito com o órgão reprodutor feminino, que ainda está se desenvolvendo nessa fase.
Dando aulas em cursos livres na UEL e em sua escola, onde também forma professoras, em um aprendizado com duração de 5 anos, Rhamza desenvolveu a própria metodologia de ensino. Misturou num caldeirão, como diz, os ensinamentos recebidos das pioneiras da dança árabe no Brasil, como Fátima Fontes e Layla, e de profissionais de renome em cursos realizados na Europa; a lembrança do itinerário que percorreu para superar suas próprias dificuldades iniciais em relação aos movimentos exigidos pela dança; e a observação, ao longos dos últimos sete anos, das couraças e travas impostas às mulheres, principalmente as que têm mais de 30 anos, por elas mesmas. Elas se acham gordas e velhas, comenta Rhamza, e por conta dessa falsa imagem, não acreditam poder fazer movimentos delicados, suaves e manter um corpo bem proporcionado. Os exercícios que desenvolveu visam justamente quebrar essas travas e libertar as alunas para os movimentos sinuosos e flexíveis da dança árabe.
E a sinuosidade está presente também na diversidade de tipos de danças árabes, muito além da famosa dança do ventre. A variedade, como conta Rhamza, passa por inúmeras danças folclóricas, que utilizam diferentes tipos de adereços, como jarro, cesta de flores, pandeiro ou espadas, chegando às tribais, aparentemente simples, mas infinitamente mais complexas do que as demais. Segue ainda por ritmos distintos, vindos de diferentes pontos da grande região que abrange o Norte da África e o Oriente Médio, como o baladi, o saiidi, o chiftetele, o maksum, o falatti... E que podem ou não utilizar os snuges, os precursores da castanhola, só que de bronze.
Para mostrar tanta riqueza rítmica e coreográfica, Rhamsa formou sua própria companhia de balé que, além de fazer apresentações em conjunto, como o do espetáculo Egypta, em 2001, divide-se em pequenos grupos para animar casamentos, bodas, batizados e eventos em geral. Nem mesmo Sherazade em suas histórias das mil e uma noites teria imaginado uma trama assim, que se inicia com uma formação em engenharia metalúrgica e se desenvolve - sinuosamente, como não poderia deixar de ser - por uma bem sucedida carreira como bailarina e professora de dança árabe.


