Movimentos de luz e sombra
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de março de 2018
Guilherme Bernardi<br>Estagiário* 

Autodidata, Edson Massuci diz não ter grandes influências, apesar dos pés imensos de suas obras lembrarem as de Cândido Portinari. "Sempre me perguntam isso", mas foi um acaso. Ele tinha que pintar obras grandes e, como não havia onde colocar a tela, ele a posicionava no chão, pintava desde a cabeça até os pés e o tamanho dos membros crescia na mesma direção. "Foi exatamente essa a história", explica Massuci, para quem na escultura essa característica é muito útil para alguém que, como ele, não gosta de colocar uma base nos trabalhos e, assim, deixá-las "livres e soltas". O trabalho de Massuci pode ser visto na exposição "Movimento, Luz e Sombra", no Museu de Arte de Londrina até 5 de maio.
Uma influência, entretanto, que ele destaca foi a da artista alemã de Rolândia Tita Stremlow. Antes acostumado ao universo unidimensional da pintura, Massuci passou para a escultura através da convivência com o trabalho da conterrânea. Sua primeira matéria-prima foi a chapa de offset, sistema usado para imprimir os jornais, e a segunda, o próprio jornal. Hoje ele também trabalha com a técnica do alumínio expandido, que são as telas de antenas parabólicas. Todos recicláveis. Massuci passou do reciclado para a compra de material apenas quando a Sicoob (Sistema de Cooperativas de Crédito do Brasil) encomendou um presépio, atualmente exposto em frente ao museu, e passou a investir nele.

A exposição e os workshops que ele dá são parte do projeto "Arte dá Vida", possibilitado por esse patrocínio, e que é motivo de alegria para o artista. Ele conta que sempre quis ensinar de graça, pois "aprendi de graça e foi uma graça para mim" e hoje ele pode ajudar, do alto de seus 66 anos, idosos a não ficarem ociosos, depressivos. A arte é uma "forma deles estarem agitados, criando e exercitando". O trabalho de seus alunos está exposto sobre as mesas do primeiro piso do museu - ao contrário dos seus que estão no chão. Esta foi uma forma de valorizar, "tirar o chapéu" para eles.
Além do uso de materiais recicláveis, um tema presente em suas obras é a natureza. Foi nela, mais precisamente quando morou no Pantanal (até 1989), que ele se descobriu artista. O tuiuiú, ave símbolo da região, está presente em várias obras suas, que têm uma característica de ir além da tela - os pássaros voam para fora delas, por exemplo. Se com a escultura, ele descobriu uma dimensão a mais, com a tela, o trabalho passou a ser 3D. Esse é objetivo de seus recentes trabalhos: explorar a iluminação, as três dimensões e o movimento que elas proporcionam. É uma "viagem", segundo o próprio artista, pensar nas possíveis interpretações, mas uma pena que o museu não esteja aberto à noite, quando a "iluminação é melhor" e a totalidade do trabalho pode ser apreciado.

Uma de suas obras tridimensionais apresenta sete corações, um para cada mulher (apesar de apenas ter tido um casamento), sendo um deles especial, com uma flecha ao centro, pois ela "me fisgou mesmo". Atualmente solteiro, Massuci brinca que não tem horários definidos, porque "quando você vive com arte, você sente com arte e a arte não tem hora", explica, antes de dizer que pode ser que ele vá dormir pensando em algo, sonhe com aquilo, acorde no meio da madrugada com a resposta e vá mexer com furadeira e outros instrumentos. "É difícil que alguém entenda isso", brinca e sorri o artista que tem quase 40 anos de carreira.
Serviço
Exposição "Movimento, Luz e Sombra" de Edson Massuci
Local: Museu de Arte de Londrina - R. Sergipe, 640
Data: até 5 de maio
Horário: de segunda a sexta-feira, das 13h às 18h
Gratuito
*Supervisão: Celia Musilli
Editora da Folha 2


