Movimento magrista recicla as idéias
Giordani Rodrigues
De Curitiba
Especial para a Folha2
Um grupo de jovens artistas, com disposição e idéias claras sobre o valor social da arte, promete agitar o mercado cultural de Curitiba nos próximos tempos. Eles compõem o Magrismo, movimento que alia o trabalho com materiais recicláveis a preocupações com a pobreza que existe na cidade, vendida pela propaganda oficial como sendo de Primeiro Mundo.
O termo magrismo surgiu justamente das referências aos tempos de vacas magras e ao magrão, estereótipo do sujeito com poucos recursos e muita versatilidade. Nada mais adequado a quem se dedica a fazer arte a partir do lixo, o que, aliás, não é exatamente uma novidade.
As novidades são que, primeiro, o grupo criou um nome para si. E todos sabemos que ter nome com que designar-se é essencial no mundo moderno. Ou se é clubber, emergente, carismático, country, ou não se é nada. Depois, houve a adesão de vários artistas já conhecidos do cenário artístico local, como é o caso de Isabela Todt, Adriana Esposito, Newton Gotto, Hélio Leite e Efigênia Rollin. E, talvez o mais importante, o Magrismo está firmemente calcado por conceitos e atos de importância social. É melhor as pessoas não torcerem o rosto para o lixo, pois daqui a pouco é só isso que elas vão ter, ressalta Sandro Ribas, o pai do movimento.
Na inauguração da exposição com as obras dos artistas envolvidos, ocorrida há duas semanas na Casa do Estudante Universitário (CEU) e que se estenderá até o dia 15 de novembro, até um discurso do legislador grego Sólon foi usado para oferecer sustentação teórica ao movimento: Batalhões de miseráveis são obrigados a abandonar suas terras e peregrinar em humilhante servidão; movidos pela avareza, os chefes do povo enriquecem ilicitamente (...). A passagem do tempo adverte que toda violação do direito traz sempre inevitável punição. O mal social é uma doença contagiosa que atinge campos e cidades.
Não se trata de jovens burgueses deslumbrados com o lado romântico e belo da pobreza. Não estamos fazendo um movimento artístico simplesmente para montar uma exposição e dizer eu sou um artista, aparecer em fotografias ou receber aplausos, observa Sandro Ribas. Dizemos que nossa preocupação não é só com o meio ambiente, mas com o ambiente inteiro, acrescenta Dilson Correa, morador da CEU e estudante do curso de Artes Cênicas. Nós nos preocupamos com o passarinho, mas também com o homem.
Prova do seu discurso é o trabalho que Dilson e outros moradores da CEU vêm desenvolvendo com meninos de rua há cerca de dois anos. Atualmente eles atendem diariamente a 25 crianças e adolescentes que vivem em mocós, os quais praticam pintura, dança, teatro, circo e capoeira nas dependências da CEU, além de dar apoio a cerca de 600 crianças carentes de bairros da periferia. As atividades recebem o apoio financeiro da Prefeitura de Curitiba e já chamaram a atenção da Unicef. Os trabalhos das crianças também fazem parte da exposição.
Entre os artistas, há o caso de Gigio Venturelli, 32 anos, ele próprio um ex-menino de rua que foi adotado com a idade de nove anos pelo professor Paulo Venturelli, da UFPR. Atualmente, Gigio é promotor cultural da Coordenação de Literatura da Fundação Cultural de Curitiba e desenvolve, junto com Tatiana Andere Galio, um trabalho de reabilitação de meninos de rua por meio da música. Eles mantêm a Banda Terra em Transe.
Uma das formas que Gigio e Tatiana encontraram para representar as privações das crianças com quem trabalham está numa escultura exposta na CEU. A obra, feita de arame trançado, mostra um corpo humano deitado, que mais parece um esqueleto, e em cuja cabeça repousa um pão comum. As sugestões de inanição e desejo de alimentar-se que a escultura produz causam efeito imediato no público.
A exposição do Movimento Magrista poderá ser vista até o dia 15 de novembro, na Casa do Estudante Universitário (CEU), em Curitiba, (Rua Luiz Leão, 01, fone 41 222-4911).Em Curitiba, integrantes do Movimento Magrista preocupam-se com o aspecto social da arte e criam obras com materiais reciclados
Mauro FrassonO ator Dilson Correa, integrante do movimento, e o artista plástico Sandro Ribas, considerado o pai do MagrismoMauro FrassonObra de Didio Venturelli resgata a forma humana através do arame trançadoMauro FrassonObra de Roseane Serafim também integra a exposição que pode ser vista até 15 de novembro





