Movimento em linha de fuga
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 20 de dezembro de 2000
Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para a Folha2 
Dentro do vasto horizonte de questões que envolvem a arte contemporânea no Brasil, certos aspectos da discussão sobre o experimentalismo nas artes como a relação entre arte e vida, os limites das linguagens artísticas e o próprio domínio das categorias que afirmam o que é ou não arte continuam válidos 30, 40 anos depois da produção artística mais radical dos anos 60 e 70.
Essa discussão ressurge tanto em trabalhos recentes de jovens artistas brasileiros quanto em obras de criadores que são ou que foram internos de instituições psiquiátricas e terapêuticas, portadores de deficiências motoras ou de desvios comportamentais, colocando em questão o problema da ética e da estética na arte e também a discussão sobre arte e loucura, que é sempre um tabu a ser quebrado.
Radicalidades e experimentações em relação aos limites da razão. Será possível estabelecer contatos e aproximações? O certo é que esta não é uma tarefa só para o sistema da arte, mas também envolve a psicanálise e a filosofia, pelo menos. Afinal, a indução ou não da prática dos métodos artísticos nesse ambíguo domínio de produção, assim como a categorização desse fazer e dessas obras são temas que exigem ampla discussão, envolvendo várias áreas disciplinares.
Artistas loucos? Loucos artistas? Arte? Loucura? Esses termos continuam a fazer sentido enquanto categorias isoladas umas das outras e também de tantas mais que já não constituem territórios estáveis de valor? O quê, como e onde a cultura é transformada pela prática de rompimento de seus estatutos? Ou o seu contrário: o quê, como e onde o sujeito se vê obrigado a romper os estatutos estabelecidos da cultura?
Para um artista como Artur Barrio, que realizou, em 1970, um trabalho chamado 4 dias e 4 noites que consistia em ficar acordado, andando, cumprindo determinadas tarefas em cada etapa do processo e criar situações que o levassem ao internamento em um hospital psiquiátrico (como, de fato, aconteceu) esta película entre sanidade e loucura não é nenhum impedimento para a criação de uma obra de arte. Ao contrário, talvez seja ela mesma a linha de fuga que possibilite à arte sua resignificação de conteúdos, para não se transformar em mera mercadoria.
De outra forma, há aqueles que, como Artur Bispo do Rosário cujas peças encantaram o mundo quando puderam ser mostradas que, internado 50 anos em um hospital psiquiátrico, sem o mínimo contato com a realidade exterior, criou, sem o saber, uma obra extremamente antenada com a vanguarda, exercendo forte influência nos jovens artistas dos anos 80 e 90. Seu movimento em linha de fuga se dava pelo avesso das questões estéticas.
Chamar de arte ou não essas manifestações talvez seja menos relevante do que tentar entender o porquê essas questões ganham tanta força e continuam tão vivas, não só nesses últimos 30 ou 40 anos, mas que pertencem desde sempre à relação entre arte e vida, que, no fundo, é o que interessa a todos nós.
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