Movido pela compaixão
Especial para a Folha2
Anthony Minghella já quis ser músico e escritor. Terminou encontrando sua vocação no cinema. Começou com pequenas produções para a BBC de Londres como o drama romântico Um Romance de Outro Mundo, que conquistou a simpatia da crítica e do público. Em 1996, recebeu o Oscar de melhor diretor por O Paciente Inglês, uma adaptação do livro de Michael Ondaatje com produção de Saul Zaentz. O filme levou nada menos que nove estatuetas.
Anthony Minghella esteve recentemente no Brasil para promover seu mais novo trabalho, O Talentoso Ripley, que está sendo exibido nacionalmente. Durante três anos, Minghella se debruçou sobre o livro de Patricia Highsmith, The Talented Mr. Ripley, para dar-lhe a forma de um roteiro. Ele concedeu uma entrevista exclusiva à distribuidora Lumiere e Jude Law (indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pelo mesmo filme). A Folha2 reproduz os melhores trechos das entrevistas.
Como você descobriu Patricia Highsmith?
Anthony Minghella Quando eu era jovem e estudante, queria ser compositor. Fazia umas canções horríveis. Certa vez, como projeto de fim de ano, escrevi uma peça que na verdade era mero pretexto para encaixar minhas músicas. Por incrível que pareça, a peça fez sucesso. As pessoas gostaram tanto que fomos convidados a cumprir uma breve temporada num teatro comercial. O mesmo produtor me encomendou um texto de teatro. Aceitei. Demorei três anos para escrever esta nova peça, e quando ela ficou pronta várias pessoas vieram me dizer que se parecia muito com os escritos de Patricia Highsmith. Só então fui procurar alguns de seus livros para ler. The Talented Mr. Ripley estava entre eles.
E quando veio a chance de adaptá-lo para o cinema?
Dezoito anos depois, eu estava tentando fazer O Paciente Inglês quando meu amigo e grande incentivador, Sidney Pollack, me contou que tinha acabado de adquirir os direitos de The Talented Mr. Ripley. Perguntou se eu não aceitaria escrever o roteiro. Disse que sim, mas com a condição de que esperassem eu terminar O Paciente Inglês para que pudesse dirigir este filme também. Ele topou.
Seu Tom Ripley é diferente do de Patricia Highsmith. A questão da homossexualidade, por exemplo, foi um ponto acentuado na sua adaptação...
O Ripley do filme é mais ambivalente do que o Ripley do livro, isso é certo. Mas não vejo a questão da sexualidade como algo especialmente exacerbado no meu roteiro. Acho que a questão também está presente, e de forma bem explícita, no romance. Ripley é alguém que tem muito medo da sua sexualidade, e as pessoas vivem zombando dele por isso. Mas trata-se de apenas um aspecto, e não necessariamente o mais importante. O filme fala muito mais sobre a vontade de ser aceito num mundo do qual se está excluído.
Qual foi o elemento do romance que provocou uma maior identificação?
Venho de um lugar onde se presta muita atenção na sua origem. Parece que está escrito na sua testa. Sou de uma família muito pobre, de origem italiana, vivendo na Grã-Bretanha. Você pode imaginar o que isso significa, não? Acho que foi a questão da classe social, tão marcante e incômoda para Ripley, que estabeleceu uma conexão minha com o personagem.
Que outra diferença entre o roteiro e o romance você ressaltaria?
Recentemente, uma revista alemã pediu que eu fizesse uma lista das coisas que eu mais amo e mais odeio. Depois que respondi, eles me mandaram a lista de Patricia Highsmith, que já havia participado da seção. O mais curioso é que o primeiro item da lista de coisas que amo que elaborei é idêntico ao dela: A Paixão Segundo São Mateus, de Bach. Mas, de resto, nossas respostas não poderiam ser mais diferentes. Uma das coisas que ela mais amava, por exemplo, era receber um telefonema cancelando um jantar no qual ela se sentia obrigada a ir. Patricia Highsmith era uma misantropa e Ripley um reflexo disso. Ela detestava o convívio social. Eu estava muito mais preocupado em ter compaixão por Ripley. Acho que é isso: a principal diferença entre o romance e o filme é a compaixão.
Você não pretende adaptar os outros livros de Patricia Highsmith sobre Ripley?
Não. Meu próximo projeto é uma adaptação de A Montanha Gelada, de Charles Frazier. Mas recentemente estive com Rupert Everett e ele disse que gostaria muito de fazer este papel no cinema. Parece que ele já está preparando um projeto.





