A busca por justiça é um dos motes mais recorrentes nos folhetins. Nas novelas, muitas heroínas e personagens de destaque são movidas por fazer justiça com as próprias mãos, o que confere às mocinhas contornos mais humanizados. ''Avenida Brasil'', por exemplo, traz à tona uma história de revanche que ainda chama atenção por ser protagonizada por uma mocinha aparentemente frágil.
Enquanto a vingança masculina era bastante usada em clássicos, como ''Hamlet'', conhecida como a ''tragédia da vingança'' de Shakespeare, ou o denso ''Conde de Monte Cristo'', de Alexandre Dumas, a teledramaturgia tem utilizado cada vez mais a figura feminina explicitando a igualdade dos gêneros na atualidade.
Na trama das oito da Globo, Rita/Nina, de Débora Falabella, faz tudo para se vingar da ex-madrasta Carminha. Afinal, a vilã matou o pai da menina e a abandonou, ainda criança, em um lixão. Para Débora, a intenção de Nina/Rita é acertar as contas com Carminha para poder viver em paz zerando o passado. ''Ela nunca vai conseguir ser feliz se não se vingar desse desamparo que ela sofreu'', defende a atriz.
O mesmo acontece em ''Chocolate Com Pimenta'', de Walcyr Carrasco que está sendo reprisada na Globo. Frágil e delicada, Ana Francisca (Mariana Ximenes) se vinga de todos que a tratavam com desprezo e a humilhavam na fictícia Ventura. Na história de época de Walcyr Carrasco, a personagem - inspirada em ''A Viúva Alegre'', de Franz Lehár, e em ''A Visita da Velha Senhora'', de Durrenmatt - é expulsa e humilhada em sua cidade e retorna anos depois, rica e poderosa. ''Uma das maiores vinganças é enriquecer. Esse trabalho é inesquecível na minha carreira'', destaca Mariana.
Mas nem sempre a vingança move apenas as mocinhas e é justificada pela ''justiça'' nas histórias. Vilãs emblemáticas, como a Laura, de ''Celebridade'', demonstram comportamentos vingativos psicopatas. Na história de Gilberto Braga, a personagem de Claudia Abreu acredita que o pai foi injustiçado por Maria Clara Diniz, de Malu Mader, e faz tudo para destruir a inimiga. ''Ela era uma vilã genuína, que matava, enganava e humilhava por vingança. Sempre sonhou em ter a vida da Maria Clara e achava que suas maldades eram justificáveis'', analisa Claudia.
Por ironia, Malu, que foi alvo de vingança em ''Celebridade'', também se destacou como uma personagem vingativa anos antes, em ''O Dono do Mundo''. Na história, a protagonista casava-se ''donzela'' e, na lua de mel, perdia a virgindade não com o marido, mas com o vilão Felipe Barreto, de Antônio Fagundes. Além de lidar com a tragédia do suicídio do marido, vivido por Tadeu Aguiar, a personagem começou a ser rejeitada pelo público e se transformou. Virou uma mocinha vingativa, com o objetivo de destruir a vida do médico, interpretado por Fagundes.
Igualmente enganada foi Norma, de Glória Pires, em ''Insensato Coração''. Depois de se apaixonar por Léo, de Gabriel Braga Nunes, e ter ido parar na prisão por seis anos por causa do vilão, a personagem quis fazer justiça a qualquer custo. Chegou a torturá-lo quando o manteve em cárcere privado, por dias. ''Ela viveu a realidade 'matar ou morrer' na prisão. Isso fez com que ela passasse a questionar a ética quando saiu da cadeia'', analisa Glória.
Na tragédia grega, muitas vezes, a vingança era autodestrutiva. Como é o caso de Medéia, que após matar o irmão, assassina os próprios filhos para se vingar de uma traição. Na teledramaturgia, no entanto, as vinganças, mesmo as vilanescas, são mais brandas. Quando ocorre com as mocinhas, ela segue uma linha ''justiceira'', sem assassinatos ou violência.
Em ''Duas Caras'', por exemplo, Maria Paula, personagem de Marjorie Estiano, é enganada por Ferraço, um golpista que se casa com a jovem ingênua, rouba sua fortuna e a abandona. O começo do ''troco'' veio capítulos depois, após uma passagem de tempo de 10 anos. Foi quando Maria Paula descobriu a verdadeira identidade do vilão e o desmascarou, começando assim, um longo plano de vingança. No entanto, em uma das raras exceções da teledramaturgia, o vilão se arrependeu dos desacertos do início e a vingança foi substituída pelo perdão da protagonista. ''Queria muito que ela se vingasse de todo o sofrimento que ele causou. Ela tinha um ódio obsessivo, mas acabou perdoando'', contenta-se Marjorie.

mockup