MOTOQUEIROS NÃO; MOTOCICLISTAS
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de julho de 2000
Jackeline Seglin De Londrina 
Fundado em 83, o Moto Clube Pés Vermelhos de Londrina mantém o espírito de liberdade sobre duas rodas. No grupo há de borracheiro e a promotor de justiça, harleiros ou não
Um clássico do cinema norte-americano marcou época por refletir as atitudes e o comportamento de uma geração inteira, sintetizando medos e esperanças dos anos 60. O filme Sem Destino (Easy Rider, 1969), protagonizado por Dennis Hopper e Peter Fonda, mostra a aventura de dois motociclistas vivenciando a liberdade na estrada em uma viagem pelos Estados Unidos. Décadas depois, a liberdade sobre duas rodas ainda tem reflexos no mundo inteiro. Os responsáveis por isso têm em comum a paixão pela motocicleta e a estrada.
Os harleiros termo relacionado às famosas motos Harley Davidson são um símbolo marcante da origem dessa onda, que tem muitos quilômetros rodados. Entretanto, os motoclubes atualmente são mais democráticos. Em Londrina, o Moto Clube Pés Vermelhos, por exemplo, vive sua segunda geração. Fundado em 1983, era um grupo restrito de sete harleiros, mas desde 1998 passou a aceitar outros motociclistas. Hoje são 65.
Eclética também é a base deste motoclube: são pessoas de diversas profissões de borracheiro a promotor de justiça , idades, raças e classes sociais. O comerciante Eduardo Limão, 36 anos, dono de uma Harley 71, conta que com a mudança de 1992, o Moto Clube reestruturou sua filosofia, pautado pela amizade, harmonia e confraternização.Em nossas reuniões, a gente não fala só de motos. Trocamos experiências de vida, que podem ser ou não em cima de uma motocicleta, diz Luiz Carlos Pielak, 37, proprietário de um posto de gasolina.
A motocicleta, na sua opinião, é apenas o elo entre os associados. O importante é o sujeito que vai em cima da moto, diz Pielak, que tem uma Virago 535/99. Um detalhe importante: eles não gostam de ser chamados de motoqueiros. Somos motociclistas, caras que curtem a moto.
O Moto Clube Pés Vermelhos é suporte da filial carioca do Hells Angels, um dos clubes mais antigos do mundo, que teve início nos Estados Unidos e atualmente está disseminado em todo o mundo.
Fã de nomes como Creedence Clewater, Eagles e Dire Straits, Pielak assume: a turma curte um som da época do sexo, drogas e rocknroll, que lembra um tempo em que se pedia liberdade através das drogas, do jeito de se vestir... hoje isso é quase uma lenda, analisa. Eduardo Limão frisa que o que existe é um movimento mais organizado e forte. A nossa filosofia se transformou em algo que a gente precisa no dia-a-dia, assim que sai do trabalho, para acabar com o stress, alega.
O clube tem motociclistas de 25 anos a 62 anos. A amizade e o companheirismo são a base da convivência do grupo. Aos sábados, eles se reúnem na sede da Avenida Higienópolis para curtir um churrasco e bater papo. Os encontros se repetem às quintas-feiras. A festa é garantida. Mas ingressar nesse clube não é tão fácil assim: tem até reunião com votação. Se qualquer pessoa do grupo for contra a adesão, o cara fica no cabide até resolver o problema. Se não acertar, não entra, avisa. O tempo de observação do novato dura em média quatro meses. Um colete jeans é a marca do associado Pés Vermelhos.
Luiz Carlos Pielak define o Moto Clube como uma espécie de irmandade que agrupa apenas homens. O Pés Vermelhos teve uma única sócia, que mudou para Curitiba, mas continua cadastrada. De certa forma, as esposas e namoradas fazem parte do clube, só que se reúnem em outro lugar e às vezes viajam conosco, observa.
Nas viagens, as motos estão prontas logo cedo para pegar a estrada. Geralmente para fazer passeios em grupo ou participar de eventos. Desligados os motores barulhentos, começa a festa: muita música, brincadeiras e bate-papo. Mas às vezes o roteiro é mais extenso. O bioquímico Albino Zanatta, 47 anos, fez sua primeira grande viagem com sua Yamaha TDM 850. Saiu de Londrina com dois amigos e foi parar no Chuí (extremo sul do Brasil). A nova aventura é chegar ao Ushuaia, na Patagônia Argentina.
Da mesma forma que os personagens de Sem Destino, os motociclistas ainda hoje sofrem preconceitos. A maneira de se vestir, com calças de couro, coletes, jaquetas ou lenços na cabeça, acaba criando impressões equivocadas. Histórias que comprovem esse fato não faltam. O comerciante Luiz Paulo, de Cornélio Procópio, foi a uma festa em Joinvillle (SC) com três amigos e, claro, suas motos. Tentamos várias vezes pedir um chope. Ninguém atendeu. Fomos embora. Na saída, notaram que havia um pelotão de choque da polícia, chamado para tirar os quatro homens da festa. Um perigo!
O site do Moto Clube Pés Vermelhos é www.geocities.com/pes_vermelhos. Uma dica para os fãs de Easy Rider: a editora Rocco está lançando no Brasil, pela coleção Artemídia, o livro Sem Destino, em que o norte-americano Lee Hill desvenda os bastidores do filme.


