São Paulo, 07 (AE) - Para marcar seus 35 anos de carreira, José Barbosa expõe a partir de amanhã um panorama bastante amplo de sua produção na Galeria Jacques Ardies. Essa seleção de pinturas e talhas realizadas na última década mostra como o artista pernambucano concilia uma inquestionável herança da cultura de sua terra natal com uma grande curiosidade criativa, que o leva a abordar diferentes temas e situações e a retrabalhar incessantemente a mesma tela até chegar a um resultado que o agrade.
Um dos quadros da mostra, intitulado de "Eu Acho É pouco" - homenagem a um bloco carnavalesco de Olinda - tem duas datas. Ele começou a ser pintado em 1988 e só foi concluído este ano. "Eu não tenho esse negócio de parar", diz Barbosa. É dessa investigação permanente que nasceu Vitória de Samotrácia, uma das telas mais interessantes da exposição e que realiza uma espécie de fusão dos vários universos pelos quais o artista transita.
O peixe gordo que flutua no intenso azul do céu ou do mar é um evidente tributo à arte popular nordestina, mas tem em suas entranhas uma paisagem marinha de Camboriú, cidade onde o artista vive desde o início da década, e um corpo de mulher alada em homenagem à imponente escultura Vitória de Samotrácia do museu do Louvre, em Paris -- cidade onde Barbosa viveu alguns anos, quando se mudou para a Europa fugindo do clima opressivo que reinava no País durante o regime militar.
Inicialmente ele foi para Colônia, depois para Londres, até que achou Paris. Aliás, foi na capital da França que começou a pintar, já que até então só fazia talhas. O trabalho em madeira continua sendo um dos pontos altos da sua produção, como comprovam a enorme "Porta da Criação" ou a expressiva "Pietá", que esculpiu num pedaço de tília que estava prestes a ir para o forno numa padaria em Blumenau e que chamou a sua atenção por suas formas sugestivas.
Ele só estudou até a terceira série primária e começou a trabalhar com madeira ainda garoto, para ajudar o pai marceneiro. "Nunca estudei pintura, aprendi vendo", diz. Chegou a fundar com outros artistas do Recife e de Olinda o movimento "Arte Ribeira" - que tinha a participação de nomes como João Câmara e Vicente do Rego Monteiro -, mas que foi rapidamente abortado pelo golpe de 64.
Há em seu trabalho múltiplas influências desse olhar atento, desde um erotismo quase explícito, a uma forte ascendência da arte sacra, passando por um forte conteúdo surrealista. Sua obra também é influenciada pela grande tradição da pintura em seu Estado, que data do período da colonização holandesa e da obra de mestres como Frans Post e Eckhout, com suas paisagens e naturezas-mortas encantadoras.
Apesar de a galeria na qual expõe ser especializada em arte na‹f, Barbosa recusa categoricamente o título. Sua obra nasce da cultura popular, mas não tem nada de ingênua. Aliás, essa designação vem perdendo cada vez mais a razão de ser. Se por na‹f se entende aquele artista autodidata, que realiza um trabalho espontâneo e primitivo e não se insere na tradição artística do momento em que vive, nota-se que há muita confusão na área. "Outro dia passei na frente de um centro de cultura e vi um cartaz: ensina-se arte na‹f", ironiza José Barbosa.
Serviço - José Barbosa. De segunda a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, até 16 horas. Galeria Jacques Ardies. Rua do Livramento, 221, em São Paulo, tel. (011) 884-2916. Até 28/6. Abertura às 20 horas.

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