São Paulo, 27 (AE) - No começo deste século, a cidade de Campinas iria desenvolver-se rapidamente. Com uma economia baseada na cultura cafeeira e graças à sua localização estratégica como entreposto entre o interior, a capital e o Porto de Santos, Campinas desenvolveu nessa época suas aspirações de cosmopolitismo.
É essa cidade que o fazendeiro e representante da oligarquia cafeeira local, Austero Penteado (1859-1949), fotografou durante dez anos, mais precisamente na primeira década do século. Imagens que poderão ser vistas a partir de sábado, no Museu Lasar Segall, na mostra Austero Penteado: Um Pioneiro da Fotografia em Campinas.
Colecionador de obras de arte e fotógrafo amador, registrou de forma poética e sensível cenas do seu cotidiano de fazendeiro. São imagens da mata atlântica antes da sua devastação, do Rio Atibaia, da caça e pesca, paisagens rurais e casas de fazenda, a estrada de ferro nos arredores da cidade e retratos de seus familiares e amigos, formando um universo da vida privada no Brasil na primeira metade do século: "Como ele era um amador, não tinha interesse específico em nenhum tema, registrava tudo o que lhe interessasse com igual perfeição", explica Margarida Cintra Gordinho, da Editora Marca Dágua, proprietária da coleção.
A exposição é composta por cerca de 120 fotografias, além de álbuns, documentos, negativos originais de vidro e caderno de anotações. Por mistério e sorte, o acervo de Austero Penteado ficou muito bem conservado no porão da casa da família: "O material que recebi estava bem acondicionado em caixas que nunca foram abertas, protegido dos agentes externos e até de fungos, o que me surpreendeu", conta Margarida.
Hoje, depois de circular por diversos museus de Campinas
após sua descoberta, o acervo de Austero Penteado encontra-se centralizado em duas coleções: uma parte que inclui cópias fotográficas, cartões-postais, correspondência, manuscritos e seu equipamento fotográfico, no MIS de Campinas, e os 300 negativos de vidro e dois álbuns fotográficos, pertencentes à Editora Marca Dágua. "O curioso é que apesar de possuir uma editora de livros institucionais, que trabalhou muito com histórias de família, não consigo patrocínio para publicar um livro sobre o Austero."
Obras como a de Austero Penteado são fundamentais para se traçar uma história da construção da identidade visual e do cotidiano da cidade. Fotos de amadores que não estavam a serviço de prefeituras ou governos e cujo olhar não estava comprometido com projetos oficiais. Nesse sentido, sua obra está sendo estudada no Departamento de História da Unicamp, por Suzana Barretto Ribeiro, ligada à preservação do acervo memorialístico: "Meu projeto propõe examinar as aproximações, trocas e rupturas existentes na produção de fotógrafos anônimos, profissionais e amadores, atuantes em Campinas no período de 1900 a 1915", explica. "Na obra de Austero Penteado configura-se uma tentativa de recuperar valores e situações ameaçadas pelos pressupostos da modernidade e a análise dos acervos permitirá compreender os interesses em jogo na construção da identidade visual da cidade."
Serviço - "Austero Penteado - Um Pioneiro da Fotografia" em Campinas. De terça-feira a sábado, das 14 às 19 horas; domingo, das 14 às 18 horas. Museu Lasar Segall. Rua Berta, 111, em São Paulo. Tel. (011) 574-7322. Até 1/8.

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