Rio, 19 (AE) - As obras de arte que d. João VI mandou vir para o Brasil, de sua coleção particular e da Missão Francesa, sempre estiveram no Museu Nacional de Belas-Artes (MNBA), algumas expostas e outras guardadas na reserva técnica, mas nunca mostradas como uma coleção. É o que vai ocorrer em abril e maio do ano que vem, como uma forma de o museu refletir sobre os 500 anos do Descobrimento do Brasil. "Essas obras nos fazem pensar sobre os caminhos que a arte tomou no País, já que foram o embrião de tudo que aconteceu depois", diz a diretora do MNBA, Heloísa Lustosa.
Na verdade, são duas coleções distintas. A mais uniforme é a da Missão Francesa, que chegou ao Brasil em 1816, chefiada por Joachim Le Breton, que vinha criar a Escola Nacional de Belas-Artes a convite de d. João IV, já rei de Portugal, do Brasil e do Algarve. São 54 quadros de artistas europeus, a maioria barrocos, entre os quais se destaca Sigesmondo Coccapani
que se dedicava a temas religiosos ou bíblicos. Na mesma coleção francesa, vieram pintores como Taunay e Debret, mas eles só começaram a produzir aqui.
"Essa coleção era didática, tinha o objetivo de ensinar aos futuros artistas brasileiros os segredos de sua profissão, os conceitos estéticos e as técnicas da época", ensina a historiadora de arte Suzana Pasternostro, a funcionária mais antiga do MNBA. "Eles não influenciaram o barroco brasileiro, que é anterior, mas deixaram marcas em toda a arte acadêmica brasileira, que perdurou até os primeiros anos deste século."
Segundo Heloísa Lustosa, essas obras nunca foram vistas como uma coleção única e algumas delas ficaram abandonadas na reserva técnica do museu por muitos anos. "Estamos restaurando todas para mostrar no ano que vem e, quem sabe, levar a outros Estados que já se mostraram interessados", adianta Heloísa. "Como as obras são nossas, com exceção de um retrato de d. João VI que está no Fundão, não teremos gastos com transportes e seguro e poderemos fazer um belo catálogo contando essa história."
Preciosidades - A outra coleção foi trazida por d. João VI em 1808, quando ele veio para o Brasil, fugindo de Napoleão Bonaparte, que invadira Portugal. Suzana Paternostro ressalta que, ao trazer o acervo da família real portuguesa, o então príncipe regente evitou que elas se dispersassem. "Napoleão saqueou todos os países que invadiu, levou as obras para a França e criou problemas diplomáticos que duram até hoje", completa Heloísa. "Esse seria também o destino do acervo da Casa Real Portuguesa."
Essas obras decoravam o Palácio de Évora, o da Ajuda e outras residências da família real em Portugal. No Brasil, elas foram para a Quinta da Boa Vista e para o Paço Imperial. São, em sua maioria, obras do barroco italiano, muitas de autoria desconhecida, mas há preciosidades como quadros de Caravaggio e Bottalla. Quando d. João foi embora, deixou a coleção aqui com seu filho mais velho, que faria a independência do País e assumiria o trono como Pedro I.
"Ele devia ter boa visão política, pois queria a família dominando dos dois lados do Atlântico", arrisca Heloísa. Pedro I foi embora às pressas, quase num golpe de Estado, e também deixou a coleção no Brasil com seu filho, Pedro II, que a mandou para a então Escola Nacional de Belas-Artes, origem do atual MNBA.
"Além de mostrar a riqueza desse acervo, essa exposição nos dará oportunidade de refletir sobre os primeiros anos da nossa história e como nossos governantes encaravam a questão cultural", conclui Heloísa Lustosa.

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