São Paulo, 03 (AE) - O artista plástico Luiz Monforte embarcou para Viena com mais de uma tonelada de bagagem. Levava, além de suas 26 fotomontagens, obras dos 10 gravadores que escolheu para representar o Brasil na Academia de Belas Artes de Viena. O time selecionado dá um bom exemplo de independência formal, reunindo desde artistas que trabalham com base em imagens fotográficas até gravadores que pesquisam os velhos mestres para descobrir novos caminhos.
Monforte é sintonizado com novas mídias. Explicando a técnica da série O Jogo da Amarelinha, que mostra em Viena, ele lembra que as "amarelinhas" são soluções químicas sensíveis à luz e usadas na cianotipia. O frasco das "amarelinhas" provocou uma revelação quase mística em pleno laboratório: se o jogo da amarelinha cria uma imagem totêmica ao sintetizar o percurso da terra ao céu, a solução química fotossensível transforma também o amarelo em marrom (a terra) e azul (o céu), refazendo esse percurso ascensional.
Para Décio Pignatari, ao saturar o território do papel com tanta informação visual, Monforte cria "uma alegoria épica barroca, a ponto de o suporte, de tal forma adensado e carregado de imagens, não mais poder identificar-se como suporte, pois as imagens é que se apoiam e sustentam em imagens".
A exemplo de Monforte, artistas integrantes da mostra Jovem Gravura Brasileira Contemporânea reciclam imagens para apontar novos caminhos, como o gravador Cláudio Mubarac, grande revelação dos anos 80, que vai buscar em Durer e seus contemporâneos uma imagem fundadora, exaustivamente fragmentada para o entendimento do todo. No caso de Mubarac, as gravuras usam estudos de anatomia que se tornam irreconhecíveis para o espectador num primeiro momento.
O procedimento de Mubarac faz lembrar um pouco o da fragmentação da imagem pelo pop Lichtenstein, com uma diferença básica: Lichtenstein analisava a produção industrial de imagens recorrendo à ampliação tipográfica. Mubarac vai atrás do processo artesanal, viajando ao passado para buscar a resposta sobre a transcrição do código de sinais dos velhos mestres. Num outro registro, Marco Buti também usa a tradição (mais recente) para eliminar informações que julga supérfluas e ficar com a imagem residual, lírica, do objeto ou da paisagem urbana, no caso a de São Paulo, sintetizada num jogo construtivo em preto-e-branco.
Uma das revelações recentes que integram a mostra é a artista plástica Rosana Monnerat, nome sugerido a Monforte pelo diretor do Museu de Arte Moderna, o crítico Tadeu Chiarelli. A artista tem uma obra perturbadora chamada "Abdução", deliberadamente inconclusa, que exige do espectador um olhar atento para a resposta plausível enunciada nesse mundo giacomettiano, em que tudo está no limiar do desaparecimento.
Outros integrantes da mostra tornam essa condição mais dramática, como Renata Castello Branco. Seres inertes como o da obra "Saco de Ossos, a exemplo da "Série Trágica" de Flávio de Carvalho (aquela em que ele desenha sua mãe morrendo), fazem o espectador lembrar que a arte pode até ser sublimação, mas anda invariavelmente a reboque da crua realidade.

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