Francelino França
De São Paulo
O curador geral da Mostra do Redescobrimento / Brasil + 500 Anos, Nelson Aguilar, revela que o evento foi concebido a partir de uma idéia do crítico Mário Pedrosa, após o incêndio do MAM (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro). Pedrosa imaginou para o Brasil, na época, a criação do museu das origens. Aguilar ampliou a idéia e desde 1997 vem trabalhando na megaexposição.
O curador geral pretende com essa gigantesca reunião dos simbolismos – do Brasil e sobre o Brasil – resgatar a noção de cidadania pela incorporação do legado artístico, criando novo momento na auto-estima do brasileiro. Importantes nomes das artes plásticas nacional, somados ao potencial revolucionário da arte popular, estão agregados à mostra em espaços cênicos sofisticados e bem arrematados, num relevante resumo de toda a civilização brasileira.
Uma das características da mostra é a presença de vários cenógrafos para compor cenicamente as peças integrantes da mostra, como Bia Lessa, Naum Alves de Souza, Daniela Thomas, Paulo Pederneiras, entre outros. ‘‘Essa é uma forma de inserir uma obra de arte dentro de outra obra, que por sua vez está dentro de outra obra’’, afirma Bia Lessa, responsável pela cenografia da Arte Barroca.
Numa espécie de viagem de auto-reconhecimento, como propõe Aguilar, a Mostra do Redescobrimento foi dividida em 13 módulos. No núcleo que reconstitui, do ponto de vista antropológico e etnológico, a aparição do homem e arte está o crânio de Luzia, com aproximadamente 11.500 anos. A reprodução da reconstituição facial de Luzia revela que nossos ancestrais estão mais ligados aos modernos africanos e australianos.
A ligação entre avanço tecnológico e pré-história está reunida no ambiente cênico chamado de Cine Caverna, orçado em R$ 5 milhões. O filme ‘‘Antes... uma viagem pela pré-história brasileira’’ mostra as pesquisas desenvolvidas em torno da origem do homem no território que viria a ser o Brasil até a chegada da esquadra de Cabral. O documentário dura 30 minutos, e será exibido numa tela de 150 metros quadrados. Uma dezena de sítios arqueológicos, sambaquis e cavernas de difícil acesso foi visitada e filmada. ‘‘Nesse documentário pode-se observar que as imagens pré-históricas têm motricidade, estão em constante estado de gerúndio. Vamos colocar a tecnologia mais atual para conhecer o mais distante passado’’, disse Aguilar.
Os módulos Arqueologia e Artes Indígenas reúnem criações artísticas dos primeiros povos do Brasil, na verdade povos artistas. Um dos destaques é o Mantelete Emplumado Tupinambá, originário de Pernambuco, provavelmente do século 17. Atualmente, está em Copenhague, Dinamarca, sendo a primeira vez que a peça retorna ao País. Nesses dois módulos serão apresentados objetos coletivos que representam padrões estéticos de uma comunidade elaborada para atender a funções simbólicas, rituais e mágicas culturalmente específicas. Em objetos de uso diário pode-se constatar linguagens estéticas altamente simbólicas e complexas.
As seções Arte Afro-brasileira e Negro de Corpo e Alma estabelecem um diálogo com a mãe África, mostrando os registros visuais da diáspora africana, resultando numa aculturação problemática. Rubem Valentim, Rosana Paulino e Mestre Didi estão representados nesses módulos.
O núcleo Arte Barroca contará com 380 obras, sendo que 20 são de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Esse módulo permite constatar a identificação do povo brasileiro com as imagens religiosas, um dos traços marcantes da nossa cultura. A escultura religiosa no mais alto grau de representatividade. ‘‘Através dos santos, pode-se contar a história do Brasil’’, sintetiza Bia Lessa.
Para que a Mostra não fique restrita somente à produção de artistas brasileiros, o módulo Olhar Distante é dedicado aos estrangeiros que produziram esteticamente um material interessante sobre o país. No total são 260 trabalhos, incluindo telas de Franz Post e Albert Eckout, que acompanharam Maurício de Nassau em Pernambuco no século XVII. Destaque também para artistas viajantes como Debret, Rugendas e Tunay.
Obras dos artistas Anita Malfati, Di Cavalcanti, Lasar Segall, Tarsila do Amaral, Alfredo Volpi estão no segmento Arte Moderna. Enquanto Lygia Clark, Hélio Oiticica, Franz Kracjberg, Wesley Duke Lee, entre outros, estão na seção Arte Contemporânea, reunindo obras produzidas a partir dos anos 60. Nelson Aguilar destaca ‘‘Vagão de Segunda Classe’’, de Tarsila do Amaral, óleo sobre tela de 1933 quase desconhecida.
A arte rompeu os domínios dos hospitais psiquiátricos e ganhou espaço privilegiado no módulo Imagens do Inconsciente. Revelado nos anos 80, o interno da colônia Juliano Moreira, Arthur Bispo do Rosário é o maior representante desse resgate. O mar revolto do inconsciente revelado em forma de bordados. A obra ‘‘Manto de Apresentação’’, concebido pelo artista para o dia do juízo final tem localização privilegiada. Nesse módulo estão representadas obras de quatro instituições psiquiátricas, revelando ao público a produção visionária e de vanguarda artística e contemporânea.
Mostra do Redescobrimento - abertura oficial no próximo domingo no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Dia 25 abre para o público e permanece até 7 de setembro. Preços: pacote para os três pavilhões R$ 10,00 (de terça a sexta) R$ 15,00 aos sábados, domingos e feriados. Meia-entrada para estudantes com carteirinha, maiores de 60 anos com apresentação RG. Informações pelo telefone 0800-780500.Dividida em 13 módulos, a Mostra do Redescobrimento faz a ligação entre a arte da pré-história com a da era tecnológica
Divulgação‘‘Vagão de Segunda Classe’’: obra de Tarsila do Amaral (1886 - 1973), óleo sobre tela (1933) pouco conhecida no BrasilDivulgaçãoTela de Alfredo Volpi (1896 - 1988) do início da década de 50Valentino Fialdini / Divulgação‘‘Catavento Tor钒: obra de Nhô Caboclo (Manoel Fontone), madeira policromada e metal, com aplicação de lã (Fundação Joaquim Nabuco/ Recife)DivulgaçãoLogotipo poético da cultura afro-brasileira feito por Rubem ValentimDivulgação‘‘O Helicóptero’’: instalação de Wesley Duke Lee feita em 1969 e que, além da pintura, apresenta componentes mecânicos e elétricosMauro Restiffe/ Divulgação‘‘O Telhado’’ (1970), de Marepe: em técnica mista, pertence à coleção do artista (Salvador, Bahia)

mockup