Mostra pop contemporânea revisita "Macunaíma", obra clássica de Mário de Andrade
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de abril de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 21 (AE) - Amanhã (22) à noite, às 21 horas, em um dos imensos salões do Sesc Belenzinho, complexo cultural recém-instalado na antiga fábrica do Moinho Santista, na zona leste de São Paulo, a atriz Fernanda Montenegro lerá alguns poemas. Será uma espécie de senha para o visitante entrar porteira adentro da megainstalação "Coração dos Outros (Saravá, Mário de Andrade!)", organizada com o propósito de revisitar "Macunaíma", a obra clássica do escritor Mário Raul de Almeida Leite Morais de Andrade (1893-1945).
Ao todo, são 1,6 mil metros quadrados de instalação e 32 espetáculos ou performances correlatas que fazem referência ou reverenciam o espírito de "Macunaíma", segundo os curadores. A programação se espalhará por 65 cidades do interior. Haverá exibições do vídeo sobre a montagem de "Macunaíma", de Antunes Filho, e do filme homônimo de Joaquim Pedro de Andrade, com Grande Otelo como o herói sem nenhum caráter.
Cerca de 150 pessoas trabalharam para dar forma à instalação que - vista ainda em montagem, na terça - parecia vir engrossar essa onda reflexiva sobre a identidade nacional, à qual se integram o filme "Central do Brasil" e a exposição "Brasileiro que nem Eu. Que nem Eu?", de Bia Lessa, na Faap. A mostra é uma leitura pop contemporânea do livro de Mário de Andrade, ilustrada pelas estátuas kitsch de atores da televisão e um banco 24 horas com a inscrição Mentiras Bank na fachada (que, em vez de dinheiro, fornece apenas disparates).
"Macunaíma é a maior parábola da cultura brasileira e continua muito difícil de decifrar", diz a arquiteta Gisela Magalhães, coordenadora do projeto, que tem ainda como curadores Ricardo Fernandes e Joel Rufino dos Santos. Ela desenvolveu a idéia a partir de outra exposição que montou recentemente, Caixa de Folia, no Rio - que partia de "O Turista Aprendiz", também de Mário de Andrade. O curador Joel Rufino dos Santos lembrou Darci Ribeiro, de quem foi colaborador, para exemplificar a leitura que faz de "Macunaíma". Segundo ele, Darci Ribeiro orgulhava-se de ser um perdedor, única característica de um herói legítimo: aquele que perde lutando por uma causa impossível. Sua meta, explica, é revisitar o mesmo espírito angustiado que Mário tinha em relação ao Brasil.
Na verdade, a angústia é apenas uma metáfora, porque a exposição é muito bem-humorada. O deslumbramento de "Macunaíma" ao chegar às "terras do igarapé Tietê", sua reverência às máquinas e sua inutilidade, o "linguajar bárbaro e multifário", tudo é pretexto para os happenings e instalações da mostra. Em vitrines espalhadas pela entrada, há latas de conserva, comida de santo, bustos de astros da Globo, armas indígenas e réplicas de fuzis AR-15, entre outros badulaques.
Algumas coisas incomodam pela obviedade da imagem, como os desfiles de índios, o jogador de futebol fazendo embaixada e o japonês tocando cuíca. Gisela Magalhães assume o caráter marcadamente didádico da exposição. "Não quero fazer uma coisa que seja visível, espetaculosa", diz. "Mas não é aquele didático chato, de escola". Segundo ela, o "operário do Belenzinho" que for à mostra vai aprender muito, mas não "pela via do conhecimento didaticamente organizado".
Além disso, Araraquara, a cidade onde Mário escreveu o romance em 1928, terá um acontecimento especial. A Chácara Tio Pio, onde o escritor escreveu o romance, terá uma conexão on line na abertura da exposição, mostrando em tempo real o cenário que inspirou o escritor. "Macunaíma", ao contrário do que muita gente pensa, foi um grande fracasso em sua edição inicial, com tiragem de apenas 800 exemplares custeados pelo próprio autor.
A programação paralela inclui a peça "Como Nasce um Cabra da Peste", de Eliézer Filho, que mostra com recursos de circo e malabarismo cenas que ilustram uma epopéia popular no sertão nordestino. Será no Teatro Infantil, no sábado e no domingo, às 16 horas. A Banda de Pífanos de Caruaru, fundada há 74 anos e espécie de instituição familiar do sertão pernambucano
tocará no dia 29.
Ainda neste fim de semana, o clarinetista e saxofonista Paulo Moura apresentará, no sábado, um baile com ritmos dançantes, acompanhado de sua banda de seis músicos. Amanhã, Sandra de Sá apresenta seu show "Eu sempre Fui Sincero, Você Sabe muito Bem", no qual faz releituras do mestre do soul e do funk Tim Maia - e ninguém pode negar que isso é muito macunaímico.


