Rio, 04 (AE) - O pintor Alberto Guignard será o homenageado deste ano do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), a exemplo do que ocorreu com Auguste Rodin (96), Claude Monet (97) e Salvador Dalí (98). Uma grande exposição sobre sua obra, seu tempo e seu legado será aberta amanhã (05), com 140 quadros dele
outro tanto de seus contemporâneos que participaram do Salão de Artes Plásticas de 1931 e de alguns de seus alunos. "É nossa prova de fogo, pois pela primeira vez estamos promovendo um grande evento com um artista brasileiro", diz a diretora do MNBA, Heloísa Lustosa.
Ela conta que quis homenageá-lo em 96, quando se completou o seu centenário de nascimento, mas o museu ainda não tinha experiência com eventos desse porte. Este ano, no entanto, a direção do museu decidiu homenagear um artista brasileiro e ele foi a escolha natural. Afinal, com Di Cavalcanti e Portinari
forma a santíssima trindade da pintura brasileira e suas obras são as mais valorizadas no mercado, especialmente depois que o seu "Vaso com Flores" foi arrematado por US$ 759 mil (cerca de R$ 1,3 milhão), pelo deputado Ronaldo César Coelho (PSDB-RJ), num leilão em Nova York.
"O interesse dos especialistas e do público em geral na obra de Guignard também pesou na escolha", adianta Heloísa Lustosa. "Guignard é o mais lírico dos grandes pintores brasileiros, sua obra é personalíssima e ainda não está totalmente catalogada porque muitos de seus quadros estão perdidos", continua. A curadoria ficou a cargo do marchand Jean Boghici, amigo pessoal do pintor. Boghici acredita que Guignard pintou cerca de mil quadros durante toda a vida, mas não se sabe o destino de 70% deles.
"Vendo trabalhos dele desde que abri minha galeria, em 61, e não sei onde estão muitas obras; mas há pessoas que não fazem idéia de que têm essa preciosidade em casa", conta o marchand. Ele fez contatos pessoais com os colecionadores que só cederam as obras após uma vistoria de especialistas, que lhes deram atestados de autenticidade. Boghici conseguiu reunir o mais representativo da obra de Guignard. Entre os 140 quadros, estão naturezas-mortas, paisagens mineiras e cariocas, retratos de amigos e de seus filhos, auto-retratos e os famosos vasos com flores (até mesmo o do leilão de Nova York), que só se valorizaram nos últimos anos.
A exposição será organizada de forma cronológica, em todo o terceiro andar do MNBA, numa área de 2 mil metros quadrados. No espaço também foi montada uma réplica da capela São Daniel, no morro do Jacarezinho, na zona norte da cidade, onde Guignard pintou os 14 passos da Via Sacra, nos anos 40. Hoje, a capela está desfigurada, sem as pinturas e em volta dela cresceu uma favela.
O contexto em que Guignard criou sua obra vai aparecer na exposição paralela sobre o Salão de Artes Plásticas de 1931, que Heloísa Lustosa considera tão importante quanto a Semana de Arte Moderna de 1922, que mudou nossa literatura e nossas artes cênicas. "Até então, havia uma resistência muito grande no País contra a arte moderna, mas a partir desse salão, promovido pelo urbanista Lúcio Costa, então com 28 anos e diretor da Escola Nacional de Belas Artes - predecessora do MNBA - esse panorama mudou", conta ela. "Conseguimos algumas obras que estiveram nesse salão e outras de artistas participantes".
No primeiro caso, está o painel de Cícero Dias, "Eu Vi o Mundo e Ele Começava no Recife", recentemente restaurado pelo museu; o quadro "Café", de Portinari, e um auto-retrato de Tarsila do Amaral, entre outras 80 obras. No segundo, está um tríptico de Di Cavalcanti e paisagens de Goeldi, Volpi e Lasar Segall. A atividade de Guignard como educador será representada por obras dos escultores Amilcar de Castro e Franz Weissman e do pintor Iberê Camargo, que foram seus alunos. "Ele era um professor tão exigente, mas dava tanta liberdade de criação a seus alunos que eles seguiram caminhos muito diferentes", lembra o curador. Boemia e arte - Jean Boghici conta que o salão de 31 marcou também a volta de Guignard ao Brasil, depois de longa temporada na Europa, onde estudou com os artistas consagrados da época. Ele vinha de uma família rica, com intimidade com a aristocracia fluminense (seu avô foi cabeleleiro da família de d. Pedro II) e foi criado entre Petrópolis e Nova Friburgo, na região serrana do Estado. Perdeu o pai cedo e, na adolescência, foi morar na Europa com a mãe que havia se casado com um nobre alemão.
Foi o início de uma vida tumultuada, pois ele não se dava bem com o padrasto e encontrou alívio na pintura. De volta ao Brasil, já adulto, nos anos 30, Guignard vinha marcado por uma história de abandono, pois sua mulher o havia deixado em plena lua-de-mel. Entregou-se à boêmia, mas nunca deixou de trabalhar e conseguiu estabelecer relações proveitosas com políticos e milionários influentes na época. Daí os inúmeros retratos que pintou, para homenagear amigos como Pedro Aleixo e Juscelino Kubitschek, ambos de Minas Gerais, onde Guignard viveu boa parte de sua vida e cuja paisagem não cansou de pintar.
"Ele dizia que Ouro Preto é a melhor cidade do mundo", conta Boghici. A influência mineira aparecerá na réplica do teto da igreja São Francisco de Assis, obra de mestre Athayde, um dos pintores preferidos do artista. "Mas ele também gostava muito do Rio, tanto que chegou a pintar um painel num botequim que frequentava em Copacabana, uma paisagem marinha em que São Sebastião estava rodeado de caravelas", continua. "Infelizmente, o bar foi reformado e passaram tinta em cima do que Guignard havia feito".
Heloísa e Boghici esperam receber tanto público quanto o das exposições dos anos anteriores, cujo recorde foi Monet. Suas obras foram vistas por 432 mil pessoas em dois meses. "O público se mobiliza mais quando o artista é estrangeiro, porque pensa que será a única oportunidade de ver suas obras, mas no caso de Guignard isso também acontece, pois muitos quadros são guardados a sete chaves por seus proprietários", comenta ela. A exposição, orçada em R$ 1 milhão - pagos com patrocínios pela Lei Rouanet - fica no Rio até o fim de maio e chega ao Museu de Arte de São Paulo (Masp) em 12 de junho.

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