Mostra no Rio expõe o melhor de Horst Janssen, um mestre do desenho moderno alemão
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terça-feira, 06 de julho de 1999
Por Maria Hirszman 
São Paulo, 07 (AE) - O Paço Imperial, no Rio, abriga a partir de amanhã (08) à noite uma seleção de 160 águas-fortes de Horst Janssen (1929-1995), que é considerado um dos mestres do desenho moderno alemão. A mostra, organizada pelo Instituto de Relações Exteriores de Sttutgart vem circulando por várias cidades e deve continuar itinerando até 2002. No Brasil ela ainda poderá ser vista em Porto Alegre e Curitiba, e depois seguirá para outros países latino-americanos, como México, Costa Rica, Colombia e Venezuela.
Nascido em Hamburgo - cidade onde vive até o fim de seus dias - no período entre-guerras, Janssen viveu período de grandes turbulências, vendo de perto o surgimento do nazismo, a derrota da Alemanha na 2.ª Guerra Mundial e a cisão de seu país. E foi fortemente marcado por eles, como deixa antever uma certa melancolia presente em seus trabalhos. Aos 16 anos ele já era órfão (seus pais morreram durante a guerrra) e tornou-se o mais jovem aluno até então da Escola de Arte de Hamburgo, que abandonou em 1951, antes de completar sua formação.
Vencedor do primeiro prêmio da Bienal de Veneza em 1968, Janssen trabalhou em várias técnicas, mas foi na gravura que encontrou seu meio de expressão ideal. As obras expostas correspondem a um dos períodos mais férteis de sua produção. Realizadas entre o fim dos anos 50 até o início da década de 60, essas gravuras revelam a riqueza das experiências com água-forte desenvolvidas pelo artista. "Ele desenvolveu um traço e um estilo como ninguém", afirma Jutta Meurer, do Instituto Goethe do Rio.
Segundo ela, a grande característica da obra do gravurista é sua capacidade de trabalhar a figura humana e os elementos da natureza de forma tão sincera que "as pessoas que retrata parecem estar nuas, abertas". Aliás, uma de suas imagens preferidas é seu rosto, como revelam a grande quantidade de auto-retratos que produziu. Outras características interessantes de sua produção são o constante diálogo com os mestres que o antecederam e seu apego à tradição da gravura.
Em toda a sua obra, que fica na fronteira entre a figura e a abstração e mantém um tom misterioso que às vezes remete ao surrealismo, é possível encontrar ecos da obra de grandes gravuristas como Albrecht Durer, Gustave Klimt e Egon Schiele. Ele também vai debruçar-se sobre a tradição japonesa, como mostram os trabalhos da série "O Passeio de Hokusai", realizada em 1971 sob a inspiração de um "surimono" (xilogravura colorida em miniatura). Outras séries que merecem destaque são "Carnevale di Venezia" (marcada por uma forte sensualidade) e "A Morte de Hanno" (uma série de soturnos auto-retratos).
Os trabalhos experimentais desenvolvidos por Janssen são especialmente atrativos, como "Auto-retrato à Maneira de Nanquim", no qual o artista desenhou sobre a chapa de cobre recoberta de laca com um descascador de batatas para, segundo o catálogo da mostra, "reproduzir o aspecto de um desenho a nanquim que tivesse as possibilidades de uma água-forte" (gravação feita à base de ácido). Outra experiência interessante é a gravura "árvore em Tiras". A obra que reproduz uma árvore é composta por cinco tiras, cada uma delas realizada de maneira diferente.
Segundo o diretor do Paço Imperial, Lauro Cavalcanti, Janssen é um gravador tradicional, que preza o ofício, a relação com o gravador. Para ele, a exposição de Janssen "não é uma sinfonia, mas uma música de câmara, para ser olhada de pertinho, com calma". Além de se encaixar precisamente com a proposta do museu, de abrir espaço para as mais diferentes formas de expressão artística, a mostra serve como uma espécie de avant-premire para o mês da gravura, que ocorre em setembro no Rio.


