Rio, 16 (AE) - A atriz Fernanda Montenegro considera-se uma sobrevivente. Quando lhe perguntam por quê, ela filosofa. "Somos todos sobreviventes às doenças da infância e da vida adulta, às crises políticas e econômicas e a todos os perigos que viver implica", diz. "Nesse sentido, até um milionário como Paul Getty é sobrevivente". Para comemorar essa sobrevida de 70 anos, que completa em outubro, 50 deles passados no teatro
ela inaugura uma exposição, na quarta-feira (22), no Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio. A mostra fica no local até setembro, viaja por seis capitais e chega a São Paulo em janeiro.
Ela conta que resolveu comemorar assim, com um balanço de sua vida e perto do público e dos amigos que a seguiram nesse meio século de carreira, "os muitos zeros que se juntaram num espaço pequeno de tempo". Uma carreira que começou nos anos 40 na Rádio Ministério da Educação, no Rio, onde Fernanda trabalhou como locutora, continuou no Teatro Brasileiro de Comédia, se estendeu aos primórdios da televisão e ainda transbordou para o cinema, em momentos importantes, como "Eles não Usam Black-Tie", de Leon Hirszman, ou de êxito absoluto, como o recente "Central do Brasil", de Walter Salles Jr.
Se lhe pedem para deixar de modéstia, ela fala sobre sua contribuição para a cultura e o show business brasileiros: "Tenho a pretensão de que 99% das pessoas que me viram no palco quiseram voltar". Na televisão, a tendência se repetiu. Muita gente perdeu o preconceito contra o folhetim eletrônico ao vê-la atuando em novelas e minisséries. "Sorte minha ter estado em ótimas produções, quando a dramaturgia televisiva viveu o auge"
diz. Esse tempo passou? Fernanda acha que sim. "O modo de produção, o grande número de pessoas envolvidas e a longa duração das novelas atuais esgarçaram a dramaturgia, que não conserva o mesmo frescor do início e do fim durante os oito ou dez meses que dura uma novela".
Já a dramaturgia teatral vai muito bem, obrigada. Ao menos é essa a opinião da grande dama dos palcos, que, por sinal
já desistiu de não gostar do título. "É um azulejão que carrego pela vida afora, que tem mais cara de epitáfio", reclama. "Mas já deixei de ligar para isso e aceito se vem do coração". Ela conta que, há muito tempo, criou a personagem Fernanda Montenegro, que convive pacificamente com Arlete (seu nome de batismo), uma dando espaço à outra sem conflitos. "A única diferença entre as duas é que uma vive só a própria vida e a outra se transforma em muitas pessoas, tantas quantos são os personagens que vivi nesses 50 anos".
Ela não escolhe o preferido "porque cada um trouxe uma alegria, uma compensação". Se é para falar do melhor momento, Fernanda é prosaica. Conta que, no início, quando fazia coadjuvantes de falas pequenas, quase figuração, estava em "Divórcio a Três", ao lado de Ziembinski, Cacilda Becker e Fred Kliman. "Eu era a empregadinha e, como em todo boulervard francês, sabia do adultério que ocorria na trama", lembra. Outras alegrias ocorreram também no cinema e no teatro. "A televisão é o veículo que lhe dá mais popularidade superficialmente, enquanto o teatro é vertical", teoriza.
Quanto à compensação financeira, os tempos mudaram, ela reconhece. "O melhor mercado já foi a televisão, enquanto o teatro sempre foi compensador para quem tem coragem e disposição para uma vida itinerante como eu e meu marido (o ator e diretor Fernando Torres) sempre tivemos", comenta Fernanda. "Conheço o Brasil inteiro; acho que não há cidade onde não fui e posso dizer que o público é sempre bom, carinhoso, porque também levamos o espetáculo inteiro como é apresentado nos grandes centros". Paixão bissexta - Já o cinema é uma paixão bissexta. Ela fez nove filmes com grandes diretores em seus melhores momentos (o primeiro foi A Falecida, de Hirszman; o mais recente, Traição, de seu filho, Cláudio Torres, e outros artistas da Conspiração Filmes) e ainda foi a única brasileira a concorrer ao Oscar de melhor atriz, este ano, por "Central do Brasil". Mas sabe que não dá para viver de cinema. "Se a Sônia Braga, a atriz que mais êxito teve nas telas brasileiras, encontra dificuldades, não seria eu a única a conseguir".
Prestes a ser avó (sua filha, Fernanda Torres, está grávida de seis meses), ela não conversa sobre o assunto. "Ainda é um projeto e um assunto muito particular", desculpa-se. Dos 70 anos ela fala com alegria. "É bom não se sentir mais na obrigação de agradar a todos, saber que, se hoje não gostam do seu trabalho, amanhã é outro dia e poderemos fazer melhor", afirma. "Se me fosse dado esse privilégio, eu queria ter a pele e a carnadura dos 20 anos, mas, como é impossível, fico feliz com o que a idade acrescentou ao meu interior".

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