Mostra "Mapas e Cartas Náuticas" traz registros pitorescos dos europeus sobre o Novo Mundo19/Mar, 14:05 Por Ricardo de Souza São Paulo, 19 (AE) - Nas primeiras quatro décadas após o Descobrimento, a América era um continente com várias formas. Desde o desembarque de Cristóvão Colombo numa das ilhas do Arquipélago de Lucaias, nas Bahamas, em outubro de 1492, muitos navegadores e cartógrafos tentaram reproduzir com um mínimo de precisão aquele novo mundo. A primeira tentativa foi do próprio Colombo, que fez um pequeno croqui manuscrito em tinta preta. Contudo, só a partir da segunda metade do século 16 os mapas começaram a aproximar-se da verdadeira imagem da América. São desse período os cerca de 30 mapas reunidos na exposição "Mapas e Cartas Náuticas dos Séculos 16 a 18", que será inaugurada amanhã (20), às 10 horas, no Nóbrega Antiquário e Galeria de Arte. Os documentos, avaliados entre R$ 1 mil e R$ 4 mil, mostram registros pitorescos dos europeus sobre um novo mundo, exótico, cheio de mistérios, perigos e, principalmente, muita riqueza a ser explorada. A exposição foi organizada pelo antiquário Claudino Nóbrega, especializado em objetos dos séculos 17 e 18. A paixão por antiguidades foi herdada do pai, José Claudino, que fundou, em 1935, o local que hoje abriga a mostra. "Minha intenção é divulgar aqui um tipo de arte meio esquecida, pouco vista no Brasil", explica Nóbrega. "Na Europa são muito comuns exposições desse tipo". Os mapas reunidos na mostra trazem, em sua maioria, uma visão extremamente fantasiosa do novo continente. As curiosidades vão desde os diferentes contornos do litoral até os desenhos de animais estranhos que dificilmente passaram por aqui, como camelos. Esses animais aparecem no mapa mais antigo da exposição, feito em 1557 pelo cartógrafo italiano Geovanni Battista Ramusio (1485-1557). A representação do Brasil criada por Ramusio é a que reúne o maior número de curiosidades. Além de camelos, o cartógrafo descreve árvores que se assemelham a pinhos italianos e ciprestes. Para confundir ainda mais a cabeça dos europeus, ele desenhou um vulcão em erupção no meio do Brasil. "Isso ocorria normalmente porque muitos cartógrafos criavam o mapa de acordo com a descrição dos viajantes", esclarece Nóbrega. "No caso do mapa de Ramusio, alguém pode ter visto uma montanha e achou que era um vulcão". Cenas de canibalismo, assim como monstros marinhos emergindo do oceano, também eram comuns nos mapas dos séculos 16 e 17. Em "Novus Brasiliae Typus", criado pelo holandês Willem Blaeu (1571-1638) e impresso por seu filho, em 1648, há um desenho de três canibais (dois homens e uma mulher) esquartejando e queimando um homem. Um deles aparece fazendo um incomum churrasco de braço. Blaeu descreve ainda nativos com cabeças de visitantes indesejados. "Muitas vezes os cartógrafos mostravam perigos como artifício político para afugentar invasores", conta Nóbraga. Eles também usavam esse recurso para aumentar o território. Isso pode ter ocorrido no mapa do espanhol Antonio di Herrera y Tordesilhas (1559-1625), escritor, arquiteto, pintor e historiador do rei da Espanha. No desenho - um tanto rudimentar comparado com os demais trabalhos -, ele mostra a Bacia do Prata muito maior que a do Amazonas, além de identificar como Peru a maior parte do território brasileiro. Para Nóbrega, é admirável que esses mapas tenham resistido por tanto tempo, depois de serem transportados em viagens que duravam anos. "É quase um milagre que 500 anos depois haja um mapa mostrando o contorno quase perfeito do litoral brasileiro", diz o antiquário. "Há um primitivismo nos desenhos, é lógico, mas não é tão grande quanto se poderia esperar por causa dos poucos recursos técnicos da época". Serviço - "Mapas e Cartas Náuticas dos Séculos 16 a 18". De segunda a sábado, das 10 às 19 horas. Nóbrega Antiquário e Galeria de Arte. Rua Padre João Manuel, 1.231, tel. 3068-9388. Até 15/4