Mostra Internacional de Cinema de SP termina amanhã; último dia ainta tem bons títulos
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terça-feira, 02 de novembro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 03 (AE) - Chega amanhã (04) ao fim a 23.ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. O último dia da maratona ainda reserva alguns títulos importantes a ser conferidos pelos retardatários, como "Kadosh - Abençoados", de Amos Gita, "Meu Melhor Inimigo", de Werner Herzog, "Ghost Dog", de Jim Jarmusch, e "Verão Feliz", de Takeshi Kitano. Apenas dois cinemas, o CineSesc e a Sala Cinemateca, exibem os títulos do último dia de programação.
Começando por "Kadosh", do israelense Amos Gita, um mergulho contundente, e ao mesmo tempo delicado, na realidade de um bairro ortodoxo de Jerusalém. A história acompanha duas irmãs
de destinos diferentes. Uma delas está casada há dez anos, mas ainda não tem filhos. O rabino aconselha, praticamente obriga, o marido a procurar outra esposa para perpetuar a espécie. A outra é forçada a casar com quem não quer, também por imposição religiosa. Num corte de tonalidade francamente feminista, Gita consegue radiografar esse paradoxo que é o enclave teocêntrico em uma sociedade laica.
"Meu Melhor Inimigo" documenta o para lá de tempestuoso relacionamento entre o diretor Werner Herzog e o ator Klaus Kinski. Eles amavam-se e odiavam-se. Um quase chegou a matar o outro, mas dessa relação surgiram filmes como "Aguirre, a Cólera dos Deuses" e "Fitzcarraldo". Neles, Kinski atua como se estivesse possuído. É que vivia possuído - levava sua arte ao limite, o que era um dado de personalidade. Quando ameaça abandonar uma filmagem, Herzog o ameaça com um rifle. Não era blefe. Dessa relação - tão pouco profissional, na verdade - nasceram obras-primas. É que, diferentemente do que se pensa, profissionalismo, em arte, vincula-se à paixão. E, às vezes, a certa dose de loucura.
"Ghost Dog" não parece à altura do filme anterior de Jim Jarmusch, "Dead Man". Mesmo assim, não deixa de ter interesse. Forest Whitaker faz o matador de aluguel que segue normas de conduta de um samurai. Ok, há um tanto de orientalismo fast food na abordagem de Jarmusch, mas, ao mesmo tempo, também aquele toque de cinema cult, que tem seus fãs, seus seguidores e devotos. Exótico - "Verão Feliz", de Takeshi Kitano, é outra pedida. Nesse trabalho exótico, Kitano, autor e intérprete, serve de guia para um garoto em busca da mãe. Há momentos em que parece comédia pastelão sem compromisso. Que ninguém se iluda. Como quem não quer nada, Kitano faz uma fábula sobre a paternidade e seu poder de orientação na vida de uma criança.
Além desses filmes, que ainda podem ser vistos, cabe lembrar de outras jóias que passaram pela Mostra. É o caso do radical "Gente da Sicília", de Danielle Huillet e Jean Marie Straub, eleito como o melhor pela crítica (que, por uma vez, cumpriu seu papel de valorizar a inovação).
Ou do mais uma vez poético e denso Kiarostami, de "O Vento nos Levará". O resultado oficial surpreendeu, com o checo Sasa Gedeon, de "O Retorno do Idiota". Mas o público preferiu ficar com o conhecido: elegeu o Zhang Yimou, de "Nenhum a Menos". No fundo, o que vale mesmo é a qualidade e a originalidade, cada vez mais distantes do cinemão comercial. Por isso, a Mostra é a respiração anual do cinema como arte em São Paulo.


