Mostra indígena exprime resistência
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quinta-feira, 20 de abril de 2000
Por Ana Weiss 
São Paulo, 21 (AE) - O núcleo de Arte Indígenas configura-se nesta bienal como um foco de resistência à idéia comemorativa da data da chegada dos portugueses. Não só pela origem dos objetos - aldeias indígenas que foram exterminadas ou quase isso depois da chegada do europeu -, mas também pela atitude da curadoria, que desenhou a mostra que ocupa três dos quatro pisos da Oca recém-reformada por Paulo Mendes da Rocha a partir do que se pode chamar de visão indígena da arte.
"As nações indígenas não costumam - nem costumavam - recortar sua produção em categorias", argumenta Lúcia Hussak van Velthem, curadora do módulo. "Os índios vêem tudo quanto produzem, independentemente da finalidade, como exemplares de sua arte; eles não têm necessidade de segmentar sua cultura como os europeus", continua a curadora que, no texto do catálogo, refere-se à limitação ocidental em compreender a produção indígena como uma miopia, que se reflete também no vocabulário da classificação dessa produção.
Ela observa que a começar pelo título "arte indígena", termo muito usado para designar todo tipo de artefato criado ou confeccionado por qualquer índio de qualquer nação é, além de limitador, impreciso ao extremo. É como enfiar no mesmo balaio as espantosas máscaras zoomorfas dos jurupixunas do Amazonas (uma delas, vinda do Museu Antropológico da Universidade de Coimbra, Portugal ) e o delicado diadema de plumas coloridas dos wai wais, da Guiana Francesa (emprestado do Staatliches Museum fur Vlkerkunde Dresden, Alemanha).
Assim, a montagem até aproxima a criação de artista pertencentes à mesma nação, mas conduz o olhar do espectador para o entendimento de que não existe apenas um tipo de produção indígena, nem tampouco um índio apenas, mas sim uma grande diversidade de obras, que refletem à imensa diversidade cultural dos povos indígenas contemplados pela exposição, que também tem curadoria de José António Braga Fernandes Dias.
A curadora destaca, para ilustrar essa situação, o conjunto de obras dos índios da tribo waiana, do Pará. Ela chama a atenção para suas máscaras antropomórficas. As peças, feitas de plumas de pássaros, tinham uma função mística para os waianas. Elas eram utilizadas, por exemplo, nos ritos de passagem da vida juvenil para a adulta, de forma que o iniciante vestia a peça para simbolicamente receber a força ancestral que guiava seu povo.


