Rio, 07 (AE) - As diversidades do Brasil levaram a população a criar hábitos e costumes diferentes, mas a hospitalidade e o talento para solucionar dificuldades do dia-a-dia são comuns a todos. Isso foi o aprenderam Alex Krusemark, Canário Caliari e Sérgio Rondeli na viagem iniciada dezembro de 1998, como parte do Projeto Brasil 2 Mil: 500 Anos em 500 Dias. A viagem só termina no dia 22 de abril, em Porto Seguro, no sul da Bahia, mas eles exibem a partir de amanhã (08)
no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), as primeiras fotos dessa aventura.
"Nosso interesse não é a aventura em si", comenta Canário Caliari, fotógrafo capixaba sócio do geógrafo Sérgio Rondeli numa empresa de ecoturismo no Espírito Santo. "Para nós
a aventura sempre foi o método para descobrir e mostrar como somos, como vivemos e resolvemos nosso cotidiano". Nenhum deles é novato. Rondeli e Caliari começaram fazendo a pé, em 1993, os 350 quilômetros de praias entre Itaúnas (norte do Espírito Santo) e Porto Seguro (litoral sul da Bahia).
Essa, sim, foi uma viagem turística, mas a seguinte, mais ambiciosa, já teve outro objetivo. "Vimos que os mapas do litoral têm erros e resolvemos refazê-lo corretamente", conta o geógrafo Rondeli. "Para andar do Oiapoque, no extremo Norte do País, ao Chuí, no extremo Sul, entre 1996 e 1997, fomos contratados pela Editora Abril e a viagem resultou no Guia de Praias".
Na jornada atual, os fotógrafos dividiram o Brasil em sete ecossistemas (pampa, cerrado, pantanal, mata atlântica, caatinga, amazônia e litoral) e contaram com patrocínio do Banco do Brasil, que lhes abriu as portas nos municípios mais distantes e deu-lhes condição de usar equipamentos de última geração para registrar o que viram.
A viagem está orçada em R$ 700 mil, mas eles conseguiram também apoio da Fuji Filmes, que forneceu o material de imagem, e de entidades como a Associação Brasileira da Indústria Hoteleira, que os hospedou, nas cidades onde tinha filiados. Nas demais, os fotógrafos dormiram em redes, cabanas, ao relento e até em casa de desconhecidos que os convidavam.
"Nós queríamos ver como as pessoas trabalhavam, como se relacionavam entre si e como se viam", explica Alex, o cinegrafista do grupo, que fez mais de cem mil fotos e 200 horas de vídeo. "Foi interessante, por exemplo, notar como em cada região as pessoas marcam a sua propriedade, usando os materiais disponíveis: pedras no Sul, buriti no Norte, arbustos no cerrado e folha de coqueiro no Nordeste", explica.
As 40 fotos expostas no CCBB e o videowall com cenas de suas aventuras são uma parte ínfima do que eles pretendem realizar nessa viagem. "Desde o início, vínhamos todo mês a São Paulo para falar sobre o que encontrávamos a empresários e universitários, mas vamos publicar livros, CD-ROMs e vídeos, além de fazer palestras abordando vários aspectos do que registramos", diz Rondeli. "Em momento nenhum quisemos guardar essas informações e, sim, divulgá-la o máximo possível".
O que mais encantou Caliari foi a facilidade com que as pessoas recebem o visitante. "Em Belém, por exemplo, eu estava fotografando o Círio de Nazaré, quando uma senhora me chamou para almoçar na casa dela e agora tenho uma família amiga naquela cidade", lembra ele. Já Krusemark se surpreendeu com as soluções encontradas para solucionar problemas apresentados pela natureza. "No pampa gaúcho, onde falta água para a cultura do arroz e o manejo do gado, eles represam a água das chuvas nas partes mais altas, de modo que o boi tem onde beber e a plantação recebe água irrigada".
"Há muito talento desperdiçado no País", teoriza Caliari. Rondeli foi mais prático. Para ele, o melhor de toda a viagem foi a comida da amazônia, a única que considera genuinamente brasileira: "Veio dos índios até nós e é difícil de preparar, variada e muito saborosa". Mesmo assim, eles foram precavidos. Como estão viajando desde dezembro de 1998, por lugares em que às vezes nem estrada existe, eles se proibiram de adoecer. "Mas como éramos companheiros, a viagem está transcorrendo sem problemas", garante Rondeli.

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