Mostra fotográfica é um painel do cotidiano brasileiro
São Paulo, 02 (AE0 - São Paulo, fim de tarde: chuva. No carro da reportagem, o olhar de Kathia Tamanaha capta os passos apressados na saída da Estação Barra Funda do Metrô. "Pulei para o banco de trás - o vidro estava com mais pingos - e fiz a composição, na qual já vinha pensando há tempos", comenta a repórter fotográfica do jornal "O Estado de S.Paulo". Noutra parte da cidade, a "lenda" do jornal, como gostam de brincar os colegas, Epitácio Pessoa, vê um banquinho boiando no Rio Tietê, durante uma enchente, no começo do ano.
Em seus muitos momentos caóticos, a cidade transforma-se num grande cemitério. A análise de L.C. Leite é uma metáfora da realidade. E, por mais nua e crua que ela seja, tem seguidores. Uma série de reportagens especiais intituladas "A São Paulo Ilegal", feita com o repórter Alceu Luís Castilho, rendeu à dupla o primeiro lugar do Prêmio Fiat Allis de Jornalismo Econômico.
Essas imagens, com outras 28, todas de repórteres fotográficos do Grupo Estado - e que estão expostas no Foto Cine Bandeirante - formam um painel dinâmico e eclético da realidade não apenas paulistana, mas brasileira. Inicialmente feitas para as editorias de esportes, cidades e política, essas fotos não somente tiram a monotonia da leitura de um longo texto, sem o recurso de ilustrações; como também são pura informação plástica.
Flagrantes - Numa mão, a chupeta. Noutra, o cigarro. Edson Gomes Evangelista Jr., de 6 anos, é símbolo da infância perdida, registrada por Maurilo Clareto, em 1992. A rebelião na Febem Tatuapé, ocorrida em maio, reforça esse quadro. Caio Guatelli fez um sobrevôo pela região e fotografou menores seminus sendo vigiados por policiais da tropa de choque. Compôs uma imagem que, com o fundo verde-amarelo, transforma em retrato as palavras da bandeira brasileira: ordem e progresso.
Interpretações à parte, São Paulo não pode ser vista apenas como símbolo de degradação e abandono. O resgate da cidade é feito, com lirismo, por Mônica Zarattini e por J.F. Diório, que a interpreta como "um gigante de pedra que acolhe seus moradores". Para isso usa a simbologia de uma escultura de pedra, fotografada na Praça Ramos de Azevedo, que parece amparar uma pomba em suas mãos.
No Rio, Delfim Vieira teve a perspicácia de captar Mick Jagger, dos Rolling Stones, fazendo um de seus passos estapafúrdios durante o show realizado em 1995, no Maracanã. No ano passado, o repórter fotográfico Lindauro Gomes acompanhou um bombeiro, no meio do Parque Nacional de Brasília, tentando controlar o incêndio que já havia destruído dois terços da região.
Na cobertura política de Brasília, não poderia ficar de fora o presidente Fernando Henrique Cardoso que, na exposição, aparece na inauguração do Gasoduto Brasil-Bolívia em Corumbá, em fevereiro, afirmando que o País deve ter tranquilidade diante da crise econômica. E por falar em crise, em Itararé, São Paulo, Robson Fernandes captou uma criança do Movimento Sem-Terra olhando, por uma fresta da porteira da fazenda Rio Verde, a reintegração de posse da área, após acordo com o Incra. Indiscutivelmente, não faltam momentos - bons ou não - que marcaram os últimos anos do cotidiano do Brasil. Serviço - Mostra de Fotojornalismo do Grupo Estado. De segunda a sexta, das 11 às 19 horas; sábado, das 14 às 19 horas. Galeria do Foto Cine Clube Bandeirante. Rua Augusta, 1.108, tel. 214-4234. Até 30/12.





