São Paulo, 30 (AE) - Uma velha casa da Avenida Rebouças, fechada há dez anos, abriga desde sábado uma interessante iniciativa coletiva. Composta por instalações de sete artistas de diferentes gerações e linhas de pesquisa, a exposição "Casa Blindada" é um raro exemplo de reflexão artística acerca da realidade contemporânea. O tema da blindagem surgiu de forma quase natural depois que o grupo conseguiu esse inusitado espaço expositivo, mas é interessante notar como é possível dar múltiplas interpretações e leituras a um tema intimamente ligado ao cotidiano de todos os paulistanos.
André Balbi, Christina Apovian, Eva Castiel, Fanny Feigenson, Graciela Rodriguez, Sheila Gasko Dryzun e Sheila Mann Hara conheceram-se em um workshop coordenado por Carlos Fajardo e acabaram fundando o grupo de intervenção Sociedade Anônima - uma forma de fazer atividades em conjunto sem se ater a conteúdos programáticos ou sacrificar suas pesquisas pessoais. Essa preocupação em manter a individualidade fica evidente na exposição.
Cada um deles conseguiu manter-se fiel ao seu trabalho, mesmo em casos como o dos pintores André Balbi e Christina Apovian, que fazem suas primeiras instalações nesse evento. Os dois encontraram maneiras bastante distintas de lidar com a questão da violência, mas há em comum nos dois trabalhos uma preocupação em evidenciar a questão do impedimento.
Christina inspirou-se nas infindáveis cercas do Carandiru para criar uma imagem bastante desesperançosa da exclusão social. Já Balbi lida mais com a questão psicológica, ao tornar a pessoa prisioneira em sua casa. Ela tem um cão bravo no quintal, mas acaba refém de sua estratégia de defesa, sendo impedida de sair para o próprio quintal - fato simbolizado pela placa "cuidado com o cão", colocada do lado de dentro da porta.
Sheila Dryzun também vai buscar em sua experiência anterior como designer a inspiração para falar do labirinto psicológico, criando uma escada labiríntica e sem fim, instalada num quarto escuro. O escuro também é peça fundamental do trabalho de Graciela, que se apropriou dos restos de um incêndio que praticamente destruiu um dos quartos da casa para criar um ambiente desolado, de relativo emparedamento.
Curiosamente, são as artistas mais maduras, como Sheila Mann Hara e Fanny Feigenson que dão à mostra um tom otimista. Sheila mostra uma das instalações mais atraentes do evento, recriando na cozinha uma leitura espontânea do formalismo geométrico de Mondrian. É como se a artista judia, nascida no Líbano - e que era pré-adolescente durante a Guerra dos Seis Dias - tivesse ido buscar na arte moderna uma certeza e uma ordenação que a arte contemporânea não pode assegurar.
Outro trabalho que merece destaque é a angustiante e gélida sala criada por Eva Castiel. Em uma sala exageradamente branca, cujo teto foi propositalmente rebaixado, a artista criou uma parede composta por 2,6 mil toalhinhas de mão cuidadosamente enroladas. O incômodo é reforçado por uma simples mesa de alumínio deixada no local. Nesse ambiente, tudo parece ficar de fora: as cores, os sentimentos e até a alma, como diz Eva. Qualquer semelhança com a atual situação de uma cidade como São Paulo não é mera coincidência. Serviço - A Casa Blindada. De terça a sexta, das 10 às 19 horas; sábado e domingo, das 10 às 17 horas. Local. Avenida Rebouças, 2.045, tel. 881-8622. Até 30/4

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