Poucos santos da cultura católica possuem um apelo tão popular quanto São Francisco. E a adoração não é de hoje. Já em pouco tempo após sua morte, no século 13, Francisco foi, aos poucos, se tornando um dos santos mais representados no início da história da pintura italiana.

'Estasi di San Francesco', de Cesare Fracanzano, pintura do século XVII presente na mostra do MAB
'Estasi di San Francesco', de Cesare Fracanzano, pintura do século XVII presente na mostra do MAB | Foto: Divulgação



Depois de passar por Belo Horizonte e Rio de Janeiro, chega agora a São Paulo uma exposição sobre o período mais intenso da representação do São Francisco entre pintores italianos, que vai do século 15 ao 17. Intitulada São Francisco de Assis na Arte de Mestres Italianos, a mostra foi aberta na última sexta-feira (15) e segue até 12 de abril no Museu de Arte Brasileira, o MAB, que fica na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP).

Ao todo, a exposição traz cerca de 20 obras de grandes nomes como Tiziano Vecellio, Pietro Perugino e Guido Reni. A mostra conta com curadoria dos italianos Giovanni Morello, especialista em História da Arte, e Stefano Papetti, diretor da Pinacoteca Civica Di Ascoli.

Além das obras serem de artistas fundamentais para a arte italiana, as pinturas hoje fazem parte de grandes museus, como a Galleria Nazionale dell'Umbria e a Galleria Nazionale di Arte Antica di Roma, o que torna a etapa da exposição em São Paulo ainda mais importante. "O maior desafio da exposição é ter todas essas pinturas por tanto tempo", afirma Papetti, que concedeu entrevista por telefone.

O curador lembra que a mostra teve início em agosto do ano passado, em Belo Horizonte, e vai até abril em São Paulo. "É muito difícil conseguir um empréstimo por tanto tempo de museus italianos, são pinturas muito importantes."

O visitante, em São Paulo, vai passar por um percurso que apresenta três núcleos temáticos, divididos não por cronologia, mas por representação do São Francisco. São eles Imagens, Os Estigmas e Conversas Sagradas.

"Pensamos que seria mais fácil entender a iconografia de São Francisco dessa forma", explica Stefano Papetti. "Na primeira seção, temos pinturas em que São Francisco é representado sozinho, com as principais características de sua figura. A segunda parte e é dedicada ao evento mais importante de sua vida, que foi o fato de ele ter sido o primeiro homem a ter em seu corpo os estigmas do Cristo. Já a terceira traz representações com outros santos."

O que talvez tenha influenciado para o São Francisco ser um dos santos mais populares da Igreja Católica é o fato de ele ter sido o primeiro homem a receber, em vida, os estigmas de Cristo. Na primeira parte da exposição, o público vai poder ver Francisco pintado em épocas diferentes, mas com igual destaque para as marcas em suas mãos e pés.

É neste primeiro núcleo da mostra que está a pintura que talvez seja a mais importante da exposição, "São Francisco Recebe os Estigmas", do artista italiano Tiziano Vecello (c.1480/1485-1576). "É uma grande peça de Tiziano e uma pintura muito importante, do período final de sua vida, pintada quando tinha por volta de 80 anos", explica Papetti.
A pintura destaca os estigmas com uma ligação direta entre São Francisco e Jesus Cristo.

De outras formas, mas com igual destaque, a figura do santo exibe as feridas, principalmente nas mãos, em obras de nomes como Perugino e Cigoli. "As pinturas eram muito importantes para espalhar a história e a vida de São Francisco", esclarece o curador. "São Francisco foi especialmente representado na segunda metade do século 15, depois do Concílio de Trento, quando ele foi declarado um santo cuja vida era muito similar à de Cristo."

Para o especialista em arte italiana deste período, Luiz Marques, ouvido pela reportagem, há de fato a representação da figura de São Francisco, uma ligação muito forte com a do próprio Cristo. "A mão dele sempre mostra fortemente que ele tem um estatuto especial", diz. "A iconografia é muito voltada para a parte mística e menos para a social do São Francisco."

A segunda parte da exposição traz Francisco numa representação mais ligada à penitência, como na obra São Francisco de Assis mostrando o crucifixo, de Annibale Carracci (1560-1609). "É um quadro típico da ideia de convocar o fiel para a penitência, adoração da cruz", explica o especialista Luiz Marques.

Já a terceira e última etapa da mostra traz São Francisco em contato com outros santos, como na obra Virgem com o Menino entre os santos Sebastião, Antônio, Francisco e Roque de Cola Dell'Amatrice (1480-1547) . "É a chamada Sacra Conversação, que traz a Virgem Maria com Jesus e alguns santos", esclarece Marques. "Antes, as figuras santas se dividiam num políptico. Com o Renascimento, todas as figuras são levadas para um mesmo espaço e se cria essa conversação."

Serviço:
Exposição: São Francisco de Assis na Arte de Mestres Italianos
Local: MAB-Faap (R. Alagoas, 903, Higienópolis)
Data: até 12/4.
Horários: 10h/19h (sáb., dom. e fer., 10h/18h); fecha 3ª)
Quanto: Grátis

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