São Paulo, 05 (AE) - A abertura da Galeria Thomas Cohn em São Paulo há quase dois anos foi marcada por uma exposição de Muybridge, o pioneiro da fotografia. Desde então, o marchand Thomas Cohn vem promovendo regularmente exposições de fotógrafos contemporâneos como a americana Lesley Dill e a cubana Marta-Maria Pérez Bravo, que voltam na coletiva aberta a partir de amanhã (06) com trabalhos de dez artistas que usam a fotografia como meio de expressão. A mostra reúne cinco brasileiros e cinco estrangeiros. No time nacional estão Mário Cravo Neto, Mauro Restiffe, Denise Adams, Marco Di Giorgio e Marcelo Zocchio. Entre os estrangeiros, além de Lesley Dill e Marta-Maria Pérez Bravo, estão o venezuelano Alexander Apóstol, a argentina Rosalia Maguid e o americano Michael Lewis.
Uma questão presente em quase todos os trabalhos dos brasileiros é a retomada da alegoria, expurgada da fotografia desde os surrealistas. A fotografia abandona momentaneamente seu caráter tautogórico para imitar o exemplo da pintura, mais especificamente o da pintura impressionista, que buscava sensações puras e abstratas desvinculadas da representação. Nesse sentido, as fotos do paulista Mauro Restiffe usam a grande metáfora da pintura como "janela para o mundo" para brincar justamente com a idéia da representação. Mundo falso - Numa dessa fotos, uma tela de Vermeer é reproduzida, emoldurada e exposta numa parede. Restiffe elege um fragmento dessa mesma foto, uma paisagem, embalando-a em plástico. Vermeer acaba servindo de pretexto para uma discussão sobre o uso da figura vinculada a uma concepção particular do universo - totalmente modificada pela fotografia, que sempre pretendeu ser um retrato fiel e objetivo do mundo.
Com o advento do computador e, consequentemente, da manipulação de imagens digitais, toda essa objetividade caiu por terra. O que é um retrato da realidade? Como diferenciar uma imagem verdadeira de uma imagem tratada em computador? Tudo isso faz pensar que os impressionistas, afinal, estavam certos ao identificar na fotografia o estopim de uma crise mitológica que destruiu o discurso pictórico, subjetivo, emocionalmente legítimo. Foco - A ausência de foco em outros trabalhos - as fotos de Denise Adams e as imagens de família manipuladas de Marco Di Giorgio - trazem de volta a pergunta de um século atrás, mas renovada. A organização mental de um homem do século 20, claro, é condicionada pela imposição de cânones cientificistas. É o homem que desconfia de tudo. Di Giorgio não faz nada para diminuir essa desconfiança. Acirra a crise de identidade ao pintar velhas fotos, manipular negativos e tornar inidentificáveis imagens de um universo até então familiar e reconhecível. Ele afirma que jamais pretendeu ser fotógrafo. Acredita demais na pintura para isso.
Denise Adams, que já foi repórter fotográfica e pintora, usa apenas bonecos em miniatura para criar um mundo insólito, povoado de sombras de plástico. Não continuou pintora porque não tem talento para tanto, segundo a artista, mas sua atitude, ao desfocar o objeto, ultrapassa o naturalismo mimético do discurso fotográfico, provocando inquietação com seu mundo liliputiano de bonecos articulados e artificiais, quase monstros. Céu artificial - Ao brincar com o conceito de materialização do objeto de arte único, esse trabalho entra em sintonia com outros que buscam alternativas fora da fotografia como documento. O fotógrafo Marcelo Zocchio, que teve larga experiência jornalística (no Estado, até mesmo), mostra um painel com fragmentos do céu acompanhados de legendas que, teoricamente, deveriam identificar várias cidades do globo. À primeira vista, parecem registros dessas regiões, mas todos esses pedacinhos de céu foram fotografados do quintal da casa de Zocchio. Não é, porém, a idéia da falsificação que seduz Zocchio. "O céu foi a único espaço que permaneceu intocado pelo homem", justifica.
Essa deliberada artificialidade encontra ressonância nas fotos do americano Michael Lewis, de 29 anos, que começou sua carreira correndo as ruas de Filadélfia com a Nikon emprestada do pai. Descobriu, segundo ele, que a realidade era "meramente um ponto de vista" e decidiu manipular o que viu diante de suas lentes. Lewis quer contar histórias com essas fotos. São imagens de gente solitária, de forte sotaque hiper-realista, que remetem automaticamente ao trabalho do pintor Edward Hopper. Poesia - A poética de Lesley Dill, que também é escultora, condena o excesso de "realismo" fotográfico neste século. Lesley Dill vai buscar nos poetas do passado (Rilke, Emily Dickinson) suporte intelectual para enfrentar a banalidade do mundo moderno, que reduziu imagens e palavras a uma montanha de lixo consumido com voracidade. Usa outdoors publicitários com rostos e frases poéticas para impressionar passantes, trocando slogans por excertos poéticos.
Já o venezuelano Apóstol, mais cético (ou cínico), prefere usar o humor, recorrendo a palavras cruzadas e passatemos populares para criar imagens bizarras de um mundo em derrocada, o da representação. Apóstol subverte os signos para esvaziar o discurso empolado dos fotógrafos documentaristas. Nada em Apóstol pretende ser verdadeiro. Tudo faz parte de um jogo ilusionista que deveria ter acabado no tempo do impressionismo e que continuou graças ao apego dos homens à palavra realidade, esquecendo que o verdadeiro realista, como dizia Fellini, é o visionário.
Filha da utopia socialista, a cubana Marta-Maria Pérez segue por outro caminho. Ainda acredita no corpo como expressão fotográfica de suas idéias. Os primeiros fotógrafos também acreditavam. Acabaram descobrindo que a câmera é insuficiente para captar o que está dentro desse mesmo corpo.

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