São Paulo, 10 (AE) - Protegida pela montanha Sainte Victoire, pontilhada de casas provençais e tradicionais jardins franceses, Aix-en-Provence é uma paisagem única na França. Foi a inspiração de grandes escritores e pintores, como Guigou, Stendhal, Mistral, Zola e Cézanne - que pintou cerca de 70 telas da montanha Sainte Victoire. A fascinação da paisagem dessa região está na raiz do impressionismo francês e é o mote para a exposição "Luzes e Cores da Provença", aberta esta semana na Casa Andrade Muricy, em Curitiba (Alameda Dr. Muricy, 915, tel. 041-321-4723).
São 56 obras de 36 artistas, incluindo duas preciosidades: "Nature Morte aux Pommes et aux Amandes" (Natureza-Morta com Maçãs e Amêndoas), de Auguste Renoir (1841-1919) e "Les Baigneuses" (As Banhistas), de Paul Cézanne (1839-1906). Curador - Cézanne não poderia realmente estar de fora, já que é natural de Aix-en-Provence e toda sua obra está umbilicalmente ligada àquela terra. "Nosso museu não tem um acervo extraordinário de Cézanne, já que a maior parte de sua obra está dividida entre o Musée DOrsay, o Philadelphia Museum e o Metropolitan Museum de Nova York", disse o curador da mostra e conservador-chefe do Museu Granet, de Aix-en-Provence, Denis Coutagne, em entrevista por telefone.
Ainda assim, a tela "As Banhistas", pintado em 1896, é uma obra fora do comum do pintor, à altura de "Grandes Baigneuses", que está na National Gallery de Londres. Coutagne diz que exiostem mais de uma centena de obras do artista com essa temática, o que reforça sua obsessão em transmutar a natureza e os temas estáticos. Deixava- se conduzir pelo modelo, com a intenção de chegar a um conjunto de massas de cor. Não por acaso, Picasso retomou suas banhistas e Matisse revisitou suas maçãs.
Já um Renoir é sempre um Renoir (o Masp tem 12 óleos dele). Um deles, "Banhista Enxugando a Perna Direita", vale cerca de US$ 20 milhões. A tela exposta em Curitiba ilustra um pouco mais a tese vital do filho de alfaiate: "Eu habito o sol." A luz e a cor são o centro de sua arte, mas a natureza-morta que está em Curitiba reafirma outra de suas verdades: "O preto é uma cor importantíssima; talvez a mais importante".
Segundo Coutagne, a mostra foi montada visando fazer a relação entre a região e sua influência pictórica nos artistas, o que não significa necessariamente que haja uma busca da representação realista nos quadros. Eles vieram de diversos museus franceses: Nantes, Bordeaux, Toulouse, Troyes, Cagnes-sur-Mer, Saint-Tropez, Marseille, Alençon e Paris.
A mostra de Curitiba reúne ainda nomes de peso do período, como Auguste Chabaud (1882-1955), que tem quatro de suas telas expostas (o maior número da exposição): "Graveson" (1910), "Les Jouets" (Os Brinquedos, de 1937), "La Gitane" (A Cigana, sem data) e "Le Tirailleur Tunisien" (O Caçador Tunisiano). "Ele veio de Paris para a Provença, pertencia ao fauvismo, mas é na identificação com a técnica de cor que ele integra a mostra", diz Coutagne.
Chabaud está num dos blocos da exposição, os "Fauves da Provença", com Charles Camoin (1879-1909), Pierre Girieud (1876- 1948), Alfred Lombard (1884-1973), René Seyssaud (1867-1952) e Louis-Mathieu Verdilhan (1875-1928).
Os outros dois blocos da mostra são "Os Naturalistas" (precursores do movimento, que tinham como patronos Émile Zola e Paul Alexis), representados por Vicent Courdouan, Édouard Crémiex, Achille Emperraire, Jean-Baptiste Olive, Luc Rapha$l Ponson, Joseph Ravaisou e Adolphe Monticelli. O bloco de Renoir e Cézanne está reunido no tema "A Sedução do Midi", nos últimos anos do século 19, e tem - além dos dois expoentes - Albert André, Pierre Bonnard, Raoul Dufy, Henry Manguin, Albert Marquet, Paul Signac e Louis Valeta.
Boa parte desses artistas estava em exposição em 1874 em Paris, numa mostra coletiva, que levou o crítico Louis Lerouy a praguejar: "Selvagens obstinados, por preguiça ou incapacidade, não querem terminar seus quadros". E afirmou: "Contentam-se com uns borrões que representam suas impressões". Encerrou, taxativo: "Farsantes! Impressionistas!" E, assim, acabou batizando a nova tendência.
A Casa Andrade Muricy foi inaugurada no ano passado em Curitiba com a exposição "American Grafitti", vigorosa mostra que abrangia o período mais efervescente da pop art e da arte de rua. Desde então, tem-se convertido no mais importante espaço de exposições internacionais da capital paranaense. É uma edificação do começo do século, tombada em 1977 pelo patrimônio histórico. Recuperada, conta com 912 metros quadrados de área disponível para exposições e já trouxe, entre outros, a arte cinética de Rafael Soto. Segundo Denis Coutagne, a exposição Luzes e Cores da Provença, organizada pela União Latina, não deverá seguir para outros lugares após a mostra de Curitiba, retornando à França. A escolha de Curitiba para a realização da mostra deve-se a motivos de natureza interna da União Latina, segundo o curador. Antes do Brasil, a mostra esteve em Marselha, Paris, Lisboa e Cidade do México.

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