Mostra do Cinema Francês termina amanhã
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quarta-feira, 30 de junho de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 01 (AE) - A Mostra do Cinema Francês tem amanhã (02) seu segundo e último dia de apresentação. As atrações do Espaço Unibanco de Cinema (Rua Augusta, 1.475) são "Le Dner de Cons", de Francis Veber (14 h), "Serial Lover", de James Huth (16 h), "Romance", de Catherine Breillat (18 h) e "O Tempo Redescoberto", de Raoul Ruiz (20 h). Entra, como complemento de programa, o brasileiro "Por trás do Pano", de Luiz Villaça, às 23 horas. No Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1.000) será exibido "Les Enfants du Marais", de Jean Becker, às 18 horas.
O mínimo que se pode dizer é que nenhum desses filmes deixa de ter interesse. Mesmo porque a forte cinematografia francesa praticamente sumiu das telas brasileiras, por motivos diversos. Houve tempo em que o cinéfilo do País era dos mais atualizados sobre a produção mundial. Isso mudou e não foi para melhor. Então, o negócio é aproveitar. E seguir com atenção pelo menos dois dos filmes programados para amanhã. Um, "Romance", por sua força polêmica. Outro, "O Tempo Reencontrado", porque é a melhor adaptação de Proust já feita pelo cinema. "Romance" tem dado o que falar na França. No Brasil dificilmente será diferente.
Acontece que o filme de Catherine Breillat (que está em São Paulo) inclui cenas de sexo explícito ao mesmo tempo em que recusa o título de pornô. Mais: uma longa sequência de oito minutos mostra a relação sexual entre a protagonista, Caroline Ducey, e Paolo, vivido pelo ator de filmes pornográficos Rocco Siffredi. O ator é conhecido por seus dotes e, em entrevistas, se gaba de ter conhecido, biblicamente, 4 mil mulheres. Isso a serviço de sua arte, sem contar o que realiza durante o horário livre.
Tirando esse lado que já foi tachado de apelativo, "Romance" revela-se um filme bem interessante. A personagem de Caroline Ducey, Marie, é aparentada a Séverine, que Catherine Deneuve interpretou para Luis Buñuel em "A Bela da Tarde". Marie vive com Paul (Sagamore Stevenin), mas ele não a ama, fisicamente. Mais que impotente é desinteressado. Ou melhor, seu interesse em matéria de sexo se volta para outras esferas. Insatisfeita, Marie busca satisfazer-se com vários parceiros. Paolo é um. O diretor da escola onde trabalha, connaisseur em sadomasoquismo, será outro. Finalmente, ela paga um garoto de programa que encontra na rua.
Francês de boa cepa e linhagem, "Romance" é muito falado. As cenas de sexo são acompanhadas de discursos tão profusos que leva o espectador a se perguntar como Siffredi foi capaz de concentrar-se, contracenando com parceira tão loquaz quanto Caroline. Mas o que "Romance" tem de mais forte mesmo é a busca, algo exasperada, da natureza da sexualidade feminina. Essa procura pela essência do corpo, que é, ao mesmo tempo o que temos de mais próximo e mais desconhecido, fornece ao filme seus melhores momentos. O desfecho encontrado não satisfaz. Apazigua a consciência feminista, mas, olhado com imparcialidade, deixa a desejar.
Com "O Tempo Reencontrado", Raoul Ruiz, chileno radicado na França, não se contenta em adaptar para a tela o 7.º volume de "Em Busca do Tempo Perdido", de Marcel Proust. Na verdade, dialoga com a obra inteira e, também, com a biografia psicológica do escritor. Proust, como se sabe, ergueu sua catedral literária em homenagem à memória. Mas construiu também uma teoria da memória, que, para ele, se revela estratificada em camadas assimétricas de lembranças. Estas podem ser evocadas por acontecimentos ínfimos, como o cheiro do chá de tília, uma pedra do calçamento, o ruído da roda de um trem. Ruiz intuiu essa maneira fragmentária de recuperar o tempo e a transformou em linguagem. Por isso seu filme parece tão próximo ao livro.


