São Paulo, 28 (AE) - Se você ainda não viu, não perca. "Meu Melhor Inimigo", de Werner Herzog, é dos melhores filmes da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que entra agora em sua reta final. Ainda há chance de ver "Nenhum a Menos", o novo Zhang Yimou, "Amantes - Dogma #5", de Jean-Marc Barr, "Mentiras", de Jang Sun Woo, e "Vive LAmour", de Tsai Ming-liang. "Meu Melhor Inimigo" documenta a tempestuosa relação entre o diretor alemão Werner Herzog e o ator Klaus Kinski, que trabalhou em quatro dos seus filmes. Alguns dos seus melhores trabalhos, diga-se, como "Aguirre", a "Cólera dos Deuses" e "Fitzcarraldo".
A relação foi para lá de turbulenta, pois tanto Herzog quanto Kinski são pessoas que dificilmente podiam ser classificadas de normais. Geniosos ao extremo, egocêntricos, talentosos, pareciam feitos para brigar um com o outro. Ou com o mundo inteiro, de preferência. Há os episódios pitorescos, que adicionam sal no documentário. O melhor deles já é razoavelmente conhecido. Kinski, num ataque de estrelismo, decide abandonar pela metade as filmagens de "Aguirre" e Herzog põe uma arma em sua cabeça, ameaçando-o de morte e obrigando-o a continuar. A cena, real, é expressão de um relacionamento que vinha praticamente da infância e sempre se pautou por essa convivência entre amor e ódio.
As maluquices se sucedem no filme, Kinski quebrando móveis, interpretando como um possuído, ameaçando todos em geral e o diretor em particular. Algumas passagens são engraçadas, mas isso não é o mais importante. O melhor é ver como um ator radical do tipo de Kinski era capaz de emprestar seu corpo e sua sanidade à arte. Herzog sabe disso. O documentário, no fundo, é uma grande declaração de amor ao amigo, morto em 1991. Amantes - Da radicalidade de "Meu Melhor Inimigo" passa-se ao discutível "Amantes", de Jean-Marc Barr, quinta produção feita segundo os cânones do Dogma 95, dos dinamarqueses Thomas Vinterberg e Lars Von Trier, a primeira realizada na França. Tecnicamente, o filme reproduz o despojamento preconizado pelo Dogma: câmera na mão, oscilante, locações e som naturais, etc. A história é a do relacionamento entre um pintor iugoslavo, que mora em Paris, e uma moça francesa, funcionária de uma livraria.
Pouca gente gostou do filme. A explicação mais razoável está na expectativa criada pelos exemplares anteriores do Dogma, "Festa de Família" e "Os Idiotas", já lançados no País. A radicalidade temática dos dois indicava que essa seria uma constante no âmbito do Dogma. "Amantes" decepciona quanto a esse ponto. É apenas uma bela love story sem grandes esperanças, entre dois seres problemáticos, vivendo num país idem. Os dois brigam como cão e gato, o pintor se embriaga, a funcionária de livraria sofre, mas tudo poderia ser consertado, não padecesse ele de um defeito capital - não possuir uma carte de séjour, o cobiçado visto de permanência na França.
É apenas isso, uma história de amor, triste, singela, filme bom de ver, que uma expectativa exagerada estragou. A virulência ausente de "Amantes" aparece, com sobras, em "Mentiras", de Jang Sun Woo, filme que participou do Festival de Veneza e chocou público e imprensa por sua crueza sexual. Aliás, a linha diretriz da mostra veneziana foi o erotismo, em suas diferentes formas, o que causou a reação irada do Vaticano, que achou excessivo o sexo tido como anormal tão perto de casa. Na história de Woo, um casal assimétrico: ela, uma jovem estudante virgem, ele, um professor universitário de meia-idade.
Os dois começam a conhecer-se, no sentido bíblico do termo, e a relação evolui das formas tidas por aceitáveis para um sadomasoquismo cada vez mais violento. Como em todo filme desse tipo, é a repetição de cenas e situações o que acaba cansando. Além do mais, não há sexo mais anafrodisíaco que o desse longa-metragem. Assim, se alguém está procurando por algo estimulante, melhor desistir. Sobra aquela temática nem tão nova assim, do sexo como desespero, na base de clássicos como "O Último Tango em Paris", de Bernardo Bertolucci, ou "O Império dos Sentidos", de Nagisa Oshima. Este último, aliás, é a fonte confessa de "Mentiras".
Woo procura inovar, no começo, e transforma a narrativa numa espécie de falso documentário sobre aquilo que vai contar. Logo, no entanto, abandona a idéia e passa ao registro ostensivamente realista. Abandona qualquer tentativa de metalinguagem e fica no plano do concreto, o que parece uma decisão sensata. Nem por isso o filme se torna genial. Falta a ele aquele tom de desespero legítimo, de busca de superação dos limites (físicos, mas também psicológicos), que fazia a grandeza de suas fontes de inspiração. Veneza - "Nenhum a Menos", de Zhang Yimou, foi o grande vencedor do mais recente Festival de Veneza. Yimou ganhou o Leão de Ouro deste ano com a história singela de um professor que precisa ficar alguns dias longe do colégio onde leciona. Como não há substituto para o cargo, o prefeito do vilarejo escolhe uma menina de 13 anos para tomar conta da escola. Outra atração vinda do Oriente é "Vive lAmour", de Tsai Ming-liang, narrativa do encontro insólito, em um apartamento de Taipei, de três pessoas: um vendedor de urnas funerárias, uma empregada de uma loja de artigos femininos e uma corretora imobiliária.

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