Mostra com 150 obras de Picasso será inaugurada terça, no Rio
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quinta-feira, 22 de julho de 1999
Por Beatriz Coelho Silva 
Rio, 23 (AE) - A exposição "Picasso, os Anos entre Guerras", que será aberta ao público na terça-feira (27), no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio já está quase pronta. As 150 obras - desenhos, pinturas, esculturas e gravuras - e fotografias do artista, pertencentes aos acervos do Museu Picasso e do Museu de Arte Moderna de Paris chegaram ao MAM ontem (22). A montagem será feita neste fim de semana, sob a supervisão da curadora Dominique Dupuis-Labbé, diretora técnica do Museu Picasso, Odile Michel, e do seu administrador, Hubert Bossoilier, que vieram de Paris especialmente para acompanhar as obras.
"O período entre-guerras é muito rico na vida de Pablo Picasso porque, pela primeira vez seu trabalho se engaja politicamente", explicou Dominique, enquanto os quadros eram tirados das caixas duplas especiais em que foram condicionadas para protegê-las das mudanças de temperatura e luminosidade. "Foram anos trágicos, mas também de muita alegria e muito romance na vida dele, e este acervo que trouxemos mostra tanto sua preocupação com os acontecimentos políticos como as consequências de sua vida pessoal em seu trabalho".
As obras que poderão ser vistas no MAM - e no Museu de Arte de São Paulo (Masp) a partir de setembro - foram produzidas entre 1937 e 1945, período conturbado na Europa, marcado pela Guerra Civil Espanhola e pela Segunda Guerra Mundial. "Mesmo que para os historiadores o período entre-guerras tenha início no fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, essa época só é representada, na obra de Picasso, a partir de janeiro de 1937, quando ele apresenta seu primeiro quadro declaradamente político: "O Sonho e a Mentira de Franco", contou Dominique. Também é deste ano sua antológica "Guernica", um retrato do bombardeio da pequena cidade basca de mesmo nome.
Um dos quadros mais representativos desse período, "O Gato Pegando Passarinho", é a estrela da mostra e foi restaurado antes de vir ao Brasil. "É um hábito no Museu Picasso examinar as condições de uma obra antes de enviá-la a uma exposição", explicou a curadora. "A cada ano emprestamos cerca de 800 obras para eventos no mundo inteiro, mas estas que estão reunidas aqui são tão importantes que podemos dizer que quase não temos o que mostrar lá em Paris".
Exagero de Dominique. O Museu Picasso, aberto em 1985 com obras dadas ao governo francês pelos descendentes do artista plástico como pagamento do pesado imposto sobre herança, reúne mais de 300 pinturas, 160 esculturas, 100 cerâmicas, 1,3 mil desenhos, 58 cadernos de desenho, duas mil gravuras, 15 mil fotos, além de todo o arquivo pessoal de Picasso, que vai de sua correspondência com artistas e marchands, a receitas médicas e até notas de restaurante.
Ao escolher o que traria para o Brasil, Dominique preferiu as obras que dessem idéia não só da apreensão de Picasso com o momento político, mas também refletisse como era seu cotidiano. "Quis mostrar como a vida pública e a pessoal do artista se justapõem e se misturam", ressaltou ela. "Foi uma época de dificuldades, até para conseguir material para trabalhar, mas havia serenidade e alegria". O quadro "Café de Royen", uma das poucas paisagens pintadas por Picasso, também presente na mostra, é um exemplo disso.
Em tons azuis, verdes e amarelos, retrata o bucólico balneário no sul da França, onde o artista passava as férias com sua filha Maya, então com 4 anos. E Ao contrário do "Gato Pegando Passarinho", interpretado como uma metáfora à opressão franquista ou como símbolo do fim da liberdade com a ascensão do nazi-facismo. "Picasso nunca explicou suas obras e sempre deixou ao público o trabalho de entendê-la", comentou Dominique. "Agora é a vez de vocês, brasileiros".


