Mostra apresenta pesquisa baseada em obra de Clarice Lispector
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domingo, 16 de abril de 2000
Por Ricardo de Souza 
São Paulo, 17 (AE) - No texto "A Imitação da Rosa", de Clarice Lispector, a personagem principal, Laura, vive um dilema: não sabe se entrega uma rosa à amiga Carlota ou se fica com a flor. A obra discorre sobre uma pessoa angustiada, em busca de uma identidade. Inspirada na introspecção e dualidade da história, a fotógrafa Neide Jallageas começou a desenvolver, dois anos atrás, o projeto de mestrado de Cinema na ECA-USP intitulado Vestígios. Amanhã (18), no Paço das Artes, o público paulistano poderá ver um dos resultados de seu trabalho de pesquisa: a exposição "Realidades meramente Superficiais".
Neide expõe sete fotos num espaço todo preto, distribuídas numa sequência lógica em forma de semicírculo. O que o espectador vê são imagens da fotógrafa interpretando a personagem Laura. Essas imagens foram captadas durante 12 minutos por sete câmeras posicionadas em ângulos diferentes. Não são câmeras comuns, mas feitas com embalagens de sucrilhos, curativos e outros produtos facilmente encontrados em supermercados e farmácias.
"A exposição trabalha com a questão da relatividade do olhar e do espaço", explica Neide. "A idéia é estabelecer a tensão entre as personagens, não traduzir o conto". A fotógrafa diz que pretendeu transformar textos em imagens, baseando-se numa interpretação própria. Esse processo de transformação teve início em 1997, quando ocorreu o evento "Laços com Oswald", na Oficina Oswald de Andrade.
Na ocasião, o fotógrafo Paulo Angerami, marido de Neide, foi convidado para ministrar uma oficina que relacionava fotografia e literatura. "Ele sabia que eu adorava a Clarice Lispector e pediu que o ajudasse na parte poética", lembra Neide. O trabalho resultou numa exposição, mas Neide decidiu aprofundar o estudo. Passou a promover reuniões em casa e propôs uma análise sobre apenas um texto: "A Imitação da Rosa". "Como já estava começando o mestrado, decidi trabalhar a questão do tempo e da imagem", afirma a fotógrafa.
A partir daí, Neide dedicou-se à tarefa de visualização da personagem. Ela fez vários auto-retratos personalizando Laura. Para isso, criou e deu nome a sete câmeras: "Laurinha", "Carlotinha", "Maria Luiza", "Iraci", "Cunhatã 2", "Minha Mãe" e "Paula". "Trabalhei o lado onírico da personagem", conta. "Mas houve uma fase desse processo em que a razão e a intuição passaram a confrontar-se".
Segundo Neide, "Realidades meramente Superficiais" foi criada "para demonstrar a relatividade espacial do objeto diante de diferentes observadores". São imagens com dimensão de 96 cm x 135 cm, em preto-e-branco.
Na mostra, o espectador fica sentado num banco situado no meio da sala escura, solitário na frente da sequência de fotos. "O espaço negro é necessário para não distrair o espectador, que passa a concentrar-se apenas nas imagens", enfatiza. "Essa introspecção está relacionada ao tempo de percepção". Serviço - "Realidades Meramente Superficiais". Fotos de Neide Jallageas. De segunda a sexta, das 13 às 20 horas; sábado e domingo, das 14 horas às 19 horas. Paço das Artes. Avenida da Universidade, 1, tel. 813-3627. Até 7/5.


