MOSKA SOFISTICA A LINGUAGEM
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terça-feira, 27 de novembro de 2001
Nelson Sato <br> De Londrina 
Cacos de trip hop pontuam o novo CD de Paulinho Moska, agora rebatizado Moska. Mas o estilo gestado em Bristol entra apenas sutilmente na trama de ambiências sonoras urdida pelo cantor e compositor carioca. ''Eu Falso de Minha Vida o que eu Quiser'' (EMI), seu sexto disco, dá continuidade às experiências eletrônicas e percussivas iniciadas em ''Móbile'', o trabalho anterior.
O ex-Inimigos do Rei agora é leitor do filósofo francês Gilles Deleuze e quer distanciar-se cada vez mais das convenções embutindo conceitos filosóficos em sua criação. O disco reúne 13 faixas, todas de autoria de Moska com exceção de ''Nunca foi Tarde'', versão para ''Lover You Should've Come Over'' do norte-americano Jeff Buckley.
O material mescla instrumental acústico, samples e programações. Os arranjos privilegiam texturas climáticas, não raro sombrias. ''Um e Outro'', ''Meu Pensamento não quer Pensar'', ''Oásis'', ''Um Ontem que não Existe Mais'' e ''Mar Deserto'' (estas últimas lembrando o grupo inglês Portishead) são as canções que melhor sintetizam a guinada estética do artista.
Moska desafia cânones.
Por que você abreviou o nome artístico?
Por vários motivos. O principal deles é que eu 'falso de minha vida o que eu quiser'. Mas a mudança já estava anunciada na contracapa do disco anterior, 'Móbile', onde meu nome aparecia apenas como Moska. O móbile do título trazia embutido o conceito de movimento, de mudança, que radicalizei no novo trabalho procurando uma nova sonoridade na qual os instrumentos parecem deslocados de suas funções. A idéia de abreviar o nome não tem nada a ver com numerologia, é puro exercício de trocadilho, de assumir um apelido tôsco que me foi dado na escola. Faz parte de minhas inquietações pop-filosóficas sobre a potência do falso, o falso como novas possibilidades de verdade.
Seu disco oferece um discurso hermético ao ouvinte?
É um disco de dor, de solidão. Mas dor da existência e não porque uma mulher me deixou. A minha solidão parte de um não-conformismo e não de um abandono. Eu me sinto só por não me conformar com o trágico da vida, a manipulação capitalista, a ridicularização do que é nobre e a celebração do que é vulgar. Eu me sinto só por não me conformar com a banalização do amor, que não pode ser algo que se compra na esquina. Eu me sinto só por não me conformar com a catalogação de tudo. Eu me sinto só quando vejo tratarem arte como entretenimento.
Você não teme tornar-se inacessível para o público?
Eu me sinto um artista livre que coloca questões nos discos. Procuro transformar meu talento numa guerrilha para a sofisticação do pensamento humano. Quero que um dia meus discos sejam vistos como tratados de biografias de sensações. Eu até adoraria fazer discos sem limites e mais complicados do que este último. Mas a minha formação é a canção popular, é o formato em que atuo e que tento expandir com repertórios de outras linguagens.
A sofisticação da música pop, ou popular, passa hoje pela eletrônica?
É perigoso falar de música eletrônica no Brasil. As pessoas ainda a confundem com o bate-estacas de boate. Mas ela é um polvo com vários braços. Ela veio nos salvar da mesmice pop que assolou o mundo com suas bandas de formação rígida à base de guitarra-baixo-bateria e seus ícones de imagens plásticas. No Brasil, a eletrônica é o elo perdido entre a MPB e o rock. Na década de 80, alguns artistas tentaram aproximar os gêneros, mas a maioria acabou gerando franksteins sonoros. Agora com o sampler, os ruídos e as ambiências já é possível abandonar os modelos. Mas o que interessa é o que a eletrônica pode modificar no músico. De nada adiantaria ficar copiando o som que se faz em Londres.
Que músicos brasileiros estão explorando essas novas fronteiras? Já é possível falar de uma nova MPB?
Acho que sim. Adoraria ser fotografado no meio de figuras como Lenine e Arnaldo Antunes.


