'Morte em Veneza' estréia sábado no CineSesc em nova cópia
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quinta-feira, 23 de dezembro de 1999
Por Antonio Gonçalves Filho 
São Paulo, 23 (AE) - A metáfora é exemplar: como uma nova imagem que substitui a antiga e paira diante dos olhos do espectador, o decadente Gustav Aschenbach, de "Morte em Veneza", está de volta (sábado, no CineSesc), em cópia nova e maquiado para o novo milênio, numa época em que o cinema parece definitivamente liquidado, sobrando apenas a xepa de Tarantino e companhia. "Morte em Veneza" é o réquiem dos bons sentimentos, um monumento ao espírito num mundo dominado por céticos e arrasado pelo materialismo.
Também por isso, "Morte em Veneza" parece um filme sobre marcianos. Visconti fala de uma estranha espécie que sobrevive no inconsciente moderno, mas que pertence a outro mundo, como nossos antepassados, que acreditavam na vida, na arte e na ética. Nunca é demais lembrar que o livro homônimo de Thomas Mann, fonte inspiradora de Visconti, começa realmente quando o escritor Gustav Aschenbach sai de sua casa e caminha involuntariamente para o cemitério, levado pelas pernas cansadas. O encontro com um tipo esquisito no portão da casa dos mortos desperta nele um incontido desejo de viajar. Ver, enfim, a vida lá fora.
Visconti, no filme, troca a profissão de Aschenbach, devolvendo-lhe a feição original (Mann tinha admiração por Gustav Mahler, o compositor). O velho músico de Morte em Veneza (Dirk Bogarde) encontra-se no barco de Caronte quando o filme começa, embalado pelo suave adágio da 5.ª Sinfonia de Mahler. Mais de uma vez, Aschenbach vai encontrar o barqueiro do inferno nessa cidade ameaçada pela peste. Negada pelas autoridades sanitárias de Veneza para não afastar os turistas, mas sentida a cada passagem do siroco, a peste vai levar Aschenbach de volta para o ponto de partida de Mann, o cemitério.
Antes, Visconti reduzirá o Aschenbach a uma larva, seduzido por um garoto loiro que representa o ideal de beleza perfeita, aquela mesma entidade que os sábios gregos perseguiam com a promessa da destruição certa. Tadzio (Bjrn Andresen) é a ameaça dionisíaca ao ideal apolíneo do compositor, que passa férias no balneário do Lido, em Veneza. No adolescente polonês, que também passa férias com a família no Hotel des Bains, Aschenbach projeta o ideal do sublime, que discute exaustivamente com o melhor amigo. Para o músico, a arte é um dom divino, espiritual. Para o amigo, apenas um pecaminoso clarão dos dons naturais.
Atormentado pela presença da morte e a diluição do mundo intelectual no inferno da paixão, Aschenbach entrega-se à contemplação mórbida em absoluto silêncio, enquanto escorre a maquiagem do rosto e a dignidade cai por terra. O artista, que deveria ser um modelo de equilíbrio e força, segundo Aschenbach, desmorona de forma desonrosa diante do olhar oblíquo de Tadzio. A maneira como Visconti mostra a liquidação moral de aristocratas como Aschenbach revela muito sobre a própria origem
ele mesmo conde e pouco à vontade entre os pares. Marxista, fez filmes neo-realistas e provocou os parentes, donos do império farmacêutico Erba. Homossexual culpado, sempre identificou o amor entre homens com decadência em filmes como "Ludwig", "Os Deuses Malditos" e "Violência e Paixão".
Em "Morte em Veneza", a exegese de Visconti é feita com forte acento operístico. O intelectual de Thomas Mann não tem nada de grotesco, mas o Aschenbach do cinema é pura desarmonia, um velho de cabelos pintados que tem o rosto maquiado por um barbeiro ainda mais sórdido. Visconti torna essa decadência explícita ao pôr pobres músicos ambulantes, maquiados e desdentados, tocando canções bizarras para a nobre platéia do Hotel des Bains, ricamente vestida pelo figurinista Piero Tosi e fotografada pelas lentes exclusivas de Pasquale de Santis.
Ao descobrir a paixão pelo jovem Tadzio, Aschenbach não se deixa arrastar apenas por um sentimento que decreta a morte social dele, antes da física. Visconti identifica na máscara mortuária feita em vida - a maquiagem que escorre do rosto suado de Aschenbach- o fim da arte e da beleza. Também por isso, o compositor trata com desprezo os desdentados e populares músicos do Lido porque, afinal, eles corromperam a arte e reduziram a música ao zero absoluto. A incompatibilidade de Aschenbach com esse mundo é trágica. É esse o tema principal do clássico relançado para atormentar a consciência dos medíocres realizadores contemporâneos.


