São Paulo, 20 (AE) - Foi, como dizem os franceses, um "coup de foudre". Cédric Kahn ganhou de presente (de Laurence Ferreira Barbosa) um exemplar do romance "O Tédio", do italiano Alberto Moravia. "Não consegui parar de ler", conta ele de Paris, falando pelo telefone. Imediatamente surgiu a vontade de fazer um filme sobre o assunto. Com Ferreira Barbosa escreveu o roteiro. Montou a produção, filmando com menos dinheiro do que gostaria. O resultado é o filme que estréia na sexta em São Paulo, depois de integrar a programação da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo do ano passado.
Um dos melhores filmes franceses das últimas safras. Um filme intenso e pessoal, embora adaptado de um romance alheio. Aliás, Kahn diz que o problema das adaptações é justamente este: achar o eixo que faz com que a criação alheia seja recriada de acordo com uma ótica pessoal.
Outro filme, após "Romance", de Catherine Breillat, que reabre o debate sobre o sexo no cinema. Khan não quer ser pornográfico como Catherine. Há uma provocação da parte dela, quando diz que quer pôr a pornografia na arte, desvendando, para o público, o mecanismo do desejo feminino. O Tédio não pretende ser pornográfico, mas também fala sobre a pulsão sexual e o mecanismo do desejo. Ou seja, outro filme que vai dar o que falar.
Embora apaixonado pelo livro de Moravia, Kahn diz que não teve consciência imediata do que o atraía no material. "Foi uma coisa muito forte, muito instintiva", explica. "Só depois, quando comecei a escrever o roteiro, pude analisar melhor minha motivação e descobri que o livro fala, de forma muito densa, sobre os temas da sexualidade e da morte."
Sexo e morte, o mesmo binômio de Stanley Kubrick no poderoso "De Olhos bem Fechados". Kahn aproveita para lembrar que os franceses chamam de "petite morte" (pequena morte) os instantes que se seguem à ejaculação, quando o organismo começa a voltar à normalidade, após a vertigem experimentada pelo sexo.
Os temas do sexo e da morte foram fundamentais, mas decisiva, mesmo, foi a personagem da garota pela qual se apaixona o protagonista. No livro, é um pintor. No filme, um professor de filosofia. Desde que leu o livro, Kahn admite que teve uma sensação curiosa. "Acho que a garota se destaca no romance por uma particularidade: não é uma personagem literária, mas cinematográfica." Uma mulher que tem um lado muito meigo, muito passivo e, no entanto, termina dominando o homem na ligação.
É assim que Kahn vê a relação homem e mulher? "Esse filme me fez pensar muito no tema da ligação amorosa, sobre o que atrai homem e mulher, posto que é essa a relação que me interessa." Descobriu que, para ele, o amor é fundamentalmente dois corpos em êxtase. "Fui criado numa sociedade que valoriza o romantismo e tende a subestimar o aspecto físico, mas, para mim, embora o amor possa ter muitas formas, só se realiza no sexo, com dois corpos enlaçados, em mútua possessão."
Ciúme - Justamente, a possessão. No filme, o homem quer possuir a mulher e termina possuído por ela. "Por causa disso, muita gente aqui na França achou que eu havia deslocado o eixo do livro do tédio para o problema do ciúme." Kahn acha que se trata de uma característica masculina e, mais do que isso, humana. "Quem ama em geral quer possuir o objeto do seu desejo e aí começa o problema."
"O Tédio" chega aos cinemas brasileiros após "Romance" e "De Olhos bem Fechados". Estará havendo uma exacerbação do sexo, no cinema como na vida, como se o tema do sexo, no fim do milênio, fosse o último território em que as pessoas pudessem exercer sua individualidade, num mundo cada vez mais massificado e globalizado?
"Não sei se está havendo uma exacerbação tão grande assim", responde Kahn. Ele acha que o sexo sempre foi importante em todas as épocas, mesmo nos períodos de maior repressão. "O que sinto é que uma pessoa não pode ser completa se não desenvolver sua sexualidade; temos mais consciência disso hoje, depois de um século de psicanálise."
Ele admite que o filme é mais nervoso que o livro e há outras diferenças importantes, como a personagem da ex-mulher, que não existe em Moravia. "O livro tem um coté dolce vida muito forte", diz. "Trata da burguesia romana, de uma aristocracia blasée que tenta fugir ao tédio por meio do sexo e descobre que ele pode ser mais tedioso ainda, o sexo mecânico, insaciável, sem sentimentos." A personagem da ex-mulher não existia, mas ele achou que seria interessante criar uma ex-mulher que fosse também conselheira. "Há um quê de perversidade nisso que me atrai."
Kahn não viu o filme que Damiano Damiani adaptou do livro nos anos 60. Fez questão de não ver. "Disseram-me que é muito ruim, mas eu, de qualquer maneira, não queria sofrer nenhum tipo de influência." Se o filme fosse bom, ele poderia ficar inibido. "Sendo ruim, talvez eu tivesse a tentação de evitar as armadilhas que o conduziram ao mau resultado e isso também seria uma forma de inibição; preferi seguir o meu caminho
fazer a minha leitura de Moravia, o que é a única forma de ser pessoal trabalhando sobre material alheio."
No início, ele chegou a pensar num ator internacional para o papel do protagonista. Acha que foi melhor ter optado por Charles Berling, o ator de "Caindo no Ridículo". "Ele é alguém raro, que consegue criar um personagem no plano do físico e dos sentimentos." Acha engraçado que seu filme chegue aos cinemas brasileiros depois do de Catherine Breillat. Na França, foi o contrário. "Romance" estreou depois.
"O Tédio" recebeu o prêmio da crítica francesa no ano passado. "Não discuto os méritos de Catherine", diz Kahn. "Apenas acho que ela focaliza o desejo do ponto de vista feminino." Acrescenta que não poderia fazer o filme dela, por mais que seja fascinado pelo enigma da mulher, que tanto anima a obra de um de seus autores preferidos no cinema: o americano Joseph L. Mankiewicz.
Faz uma pausa ao telefone e diz que é curioso ter feito esse comentário sobre o enigma da mulher. "Se há esse enigma, o tormento do personagem de Charles Berling no meu filme é tentar decifrá-lo." O herói tenta racionalizar sua paixão, pois é um professor de filosofia. "Seria melhor se a vivesse com o instinto", conclui o diretor. "O sexo é muito instintivo, liga-se ao lado animal do homem." Sexo é prazer, mas também é sobrevivência. "Quando entra a cultura, a tendência é haver repressão; desejos reprimidos são perigosos", adverte.

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