Conflitos amorosos, dramas e traições são a tônica de qualquer novela. E também os principais responsáveis em prender a atenção do telespectador ao longo dos cerca de oito meses em que uma produção fica no ar. Mas não é raro que, em alguns casos, a expectativa acerca da morte de um personagem se torne tão interessante quanto os dilemas em vida, ou até mais.
É o que tem acontecido em novelas como ''Passione'', da Globo, e ''Ribeirão do Tempo'', da Record, onde o mistério envolvendo o assassinato de personagens vem roubando a cena e tornando as histórias mais intrigantes.
Eliminar um personagem, no entanto, é uma decisão tomada com cuidado pelos autores. Especialmente quando se trata de uma trama policial. ''Uma história desse tipo tem de ser escrita de trás para frente. Tudo precisa estar armado para fazer sentido. Escrevo novela com o final na minha cabeça'', explica Silvio de Abreu, autor de ''Passione''.
Na atual novela das oito, a morte do personagem Saulo, de Werner Schunemann, gerou uma série de especulações. O suspense cresceu ainda mais com as gravações das mortes de cinco personagens antes da revelação de quem seria a primeira vítima. Dentre os mais cotados, estava Diana, personagem de Carolina Dieckmann, baseado na teoria de que a possível morte da mocinha aconteceria em função de sua baixa popularidade com o público.
Mas muitos autores acreditam que, quando se trata de morte, a opinião dos telespectadores não pode ser soberana. E há quem defenda que esse não é o melhor destino para um personagem sem carisma. ''Quando um deles não agrada ou perde a função na trama, o mais adequado é fazer com que viaje e não volte. O crime precisa acrescentar algo à história, senão vira um recurso banalizado'', opina Ricardo Linhares, co-autor de ''Paraíso Tropical'' - que fez sucesso com o mistério acerca do assassinato da vilã Taís, de Alessandra Negrini - e também da próxima novela das oito da Globo, ''Insensato Coração'', ambas com Gilberto Braga.
Não trabalhar com ''pedidos do público'' também é uma opção do autor Marcílio Moraes. Ao criar os crimes que acontecem na fictícia cidade de Ribeirão do Tempo, ele garante não ter como referencial os desejos dos telespectadores.
Mas pondera que, já que as novelas são obras abertas, nem sempre vale a pena seguir à risca o que está planejado. ''É possível que uma morte prevista seja cancelada ou adiada. Sempre sigo minha intuição. Se percebo que o destino de um personagem pode ser mais interessante, modifico'', avisa o autor, que lamenta o fato de as informações sobre a morte de um personagem chegarem ao público antes dos capítulos irem ao ar. ''Não gosto muito que as pessoas saibam isso de antemão. E também não encaro como um recurso dramático. É uma contingência do modo como uma telenovela é escrita'', teoriza.
Mas as especulações acerca das mortes dos personagens costumam funcionar como um bom recurso para alavancar a audiência. Ainda mais quando os autores apostam no clássico ''quem matou?'', recurso tão antigo quanto eficiente na dramaturgia.
E foi a isso que Lauro César Muniz recorreu em ''Poder Paralelo'', da Record. Com o intuito de aumentar a curiosidade do público sobre a trama, ele decidiu, na reta final, criar um assassino misterioso que matava um personagem quase toda semana. ''Senti que precisava de um elemento de forte interesse e essa ação era cabível no tema e clima da novela. Uma história policial vive dessas armações'', conta.
Vale lembrar que foi em uma espécie de armação envolvendo a morte de mais de 100 personagens que nasceu um dos casos mais emblemáticos da dramaturgia brasileira. Em 1967, na novela ''Anastácia, a Mulher Sem Destino'', exibida pela Globo, mais da metade do elenco foi morto em um terremoto, criado com o objetivo de acabar com o excesso de personagens e reformular a trama, que sofria com sérios problemas de audiência. ''Provocamos um terremoto na tevê brasileira. Se não fosse a morte de toda essa gente, a novela sequer teria chegado ao fim, de tão perdida que estava'', lembra Emiliano Queiroz, que adaptou a novela e contou com a ajuda da escritora Janete Clair para mudar os decadentes rumos da história.

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