MORTE - O samba perde a irreverência
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terça-feira, 18 de janeiro de 2005
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
O samba está de luto. Bezerra da Silva, o embaixador da favela, morreu ontem às 8h18, vítima de uma parada cardíaca. Intérprete de sucessos como ''Malandragem Dá Um Tempo'', ''Defunto Caguete'' e ''Malandro Não Vacila'', ele estava internado no CTI (Centro de Terapia Intensiva) do Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro desde o dia 28 de outubro.
O cantor tinha 77 anos de idade. Celebrizou-se cantando o universo dos malandros e contraventores num estilo que ficou conhecido como ''sambandido'', cujas letras misturavam humor e protesto. A linhagem vinha da escola de Wilson Batista, Ismael Silva, Moreira da Silva e Dicró.
Ao longo da carreira, Bezerra gravou 28 discos. Nos dois primeiros, seguiu a tradição do coco (gênero musical nordestino) estabelecendo-se depois no samba de partido alto. Na última década, ampliou seu séquito de admiradores ao ser gravado e homenageado por artistas e grupos pop como Marcelo D2, Barão Vermelho e O Rappa.
Nascido em Recife (PE), em 1927, Bezerra deixou uma biografia repleta de aventuras, episódios dramáticos e lendas. Seu pai havia abandonado o lar antes mesmo de seu nascimento. Quando resolveu procurá-lo, foi rejeitado. Aos 9 anos de idade, já tocaca zabumba e cantava coco, embora não contasse com apoio familiar à sua vocação musical.
Ao completar 15 anos, decidiu se mandar para o Rio de Janeiro fazendo a viagem como clandestino em um navio. Na ''cidade maravilhosa'', morou no Morro do Cantagalo ganhando a vida como ajudante de pedreiro e pintor de paredes. Mulherengo e metido em confusões, foi abordado incontáveis vezes pela polícia e espremido em camburões.
''Fui campeão de averiguações, conheço todas as delegacias da zona sul, fui em cana nelas todas!'' declarou ele no livro ''Bezerra da Silva - Produto do Morro'', de autoria de Letícia Vianna e publicado pela Jorge Zahar em 1998. Ainda na década de 50, pastou três anos na sarjeta. Desempregado, andava para cima e para baixo em Copacabana como um mendigo, sem ter o que comer ou onde dormir.
Chegou a forçar uma prisão fingindo-se de louco diante de guardas de trânsito com o objetivo de garantir uma refeição na delegacia. O desespero era tanto que um dia resolveu se matar tomando formicida. Segundo a lenda, ele teria sido salvo na última hora por ''seu guia Ogum'', que fez o copo de veneno voar de sua mão.
Mas isso ele só saberia mais tarde, após frequentar um terreiro de umbanda, onde ficaria quatro anos e se tornaria médium. Influenciado por Jackson do Pandeiro, Bezerra iniciou a carreira musical profissional tocando tamborim, surdo e instrumentos de percussão na Rádio Clube do Brasil.
Em 1960 integrou a Orquestra da Copacabana Discos e mais tarde a Orquestra da TV Globo, na qual permaneceu até 1985. A estréia em disco ocorreu em 1969 com as músicas ''Mana, cadê meu boi?'' e ''Viola Testemunha'', registradas num compacto simples da gravadora Copacabana. Em 1975 lançou seus dois primeiros LPs, sem qualquer repercussão.
O sucesso só foi alcançado com uma série de álbuns dedicados ao samba de partido alto. A partir daí, o repertório de seus discos passou a ser abastecido por autores anônimos (alguns usando codinomes para preservar a clandestinidade), quando deu voz a camelôs, mecânicos, marinheiros, policiais, pedreiros, biscateiros e desempregados.
Nascia aí o ''sambandido'', estilo marcado por crônicas bem-humoradas da criminalidade e da malandragem. No começo da carreira, Bezerra circulava pelas favelas e bairros pobres da Baixada Fluminense para gravar o que era tocado nas tendas e biroscas. Ficou conhecido na época, nos morros, como o ''homem do gravador''.
Quando foi morar num apartamento alugado no bairro de Botafogo, passou a reunir compositores em sua casa para um mocotó às terças-feiras. A festa começava de manhã e entrava pela noite. Baixava gente de todo lugar para cantar e mostrar seus sambas para o anfitrião. O ritual criou problemas no condomínio.
Nos últimos cinco anos, ele ainda promovia reuniões esporádicas e ouvia fitas em busca de composições e com o intuito de promover os desconhecidos. Convertido à Igreja do Reino de Deus em 2001, preparava um álbum de músicas religiosas para este ano. O corpo do artista seria velado no teatro João Caetano, no centro do Rio de Janeiro. O enterro está previsto para hoje, às 11 horas, no cemitério São João Batista, em Botafogo.


