Morrissey faz teatro no Olympia
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domingo, 02 de abril de 2000
Por Jotabê Medeiros 
Porto Alegre, 02 (AE) - Quem diria que um cara que acha que comer carne é crime se sentiria tão à vontade na terra do espeto corrido. Mas o cantor inglês Morrissey não só gostou de Porto Alegre como ainda disse que seria "um lugar legal para se viver". Parte desse entusiasmo ele demonstrou na estréia da sua turnê brasileira, na quinta-feira, no Opinião, derradeira trincheira do rock ao Sul do País. Aproximadamente 1.200 pessoas foram ao local para assistir a um show antológico de Morrissey, que se repete amanhã (03) e terça à noite em São Paulo, no Olympia.
Ele cantou 18 canções (incluindo "Meat is Murder, de 1984, primeiro grande sucesso comercial da banda The Smiths, uma das mais importantes dos anos 80). Só deu um bis e passou boa parte do tempo fazendo um jogo de amor e ódio com a platéia, às vezes pedindo silêncio para repreender os fãs, como um irmão mais velho. Embora o set list já estivesse definido, ele dirigia-se à audiência coletando falsas sugestões que sempre ignorava. "Não, essa canção é muito chata", afirmava, no seu estilo à beira de um ataque de nervos.
"Eu não estou fingindo", disse o poeta trágico temporão. "July não está fingindo", acrescentou, apontando para a fã nova-iorquina que se locomove pelo mundo todo assistindo a todos os shows possíveis do cantor. Ele interrompeu o show e a "entrevistou" carinhosamente, para depois anunciar, em triunfo: "Esse é o 168.º show que ela vê nessa temporada", gabou-se.
O topetão já não é mais o mesmo, mas Morrissey está em excelente forma. Entrou recém-saído do banho, cabelos molhados, vestindo uma camisa preta de seda transparente e uma calça jeans ordinária. Ao longo do show, tirou a camisa e envergou mais três camisetas, além de um paletó de colarinho vinho brilhante.
O teatro trágico de Morrissey pede algum visual retrô e o cenário é composto apenas por um jogo de cortinas bordô arranjado como em cena de algum filme de David Lynch. Os fãs atiram flores ao seus pés, brancas ou vermelhas. Oferecem-lhe bilhetes e cartas e ele as recolhe enviando nos bolsos do jeans.
Morrissey entra e já ataca "Hairdresser on Fire" (do álbum "Bona Drag, seu segundo disco-solo, de 1990). Não é a melhor canção do disco (as melhores são "November Spawned a Monster e "Disappointed") e a platéia nem conhece, mas ainda assim ele já é reverenciado. Ninguém está ali para não gostar, aparentemente.
Depois, ele ganha o povo também com a presença incomum, um grandalhão agitando o fio do microfone no ar como um chicote, dançando à sua maneira pré-clubber, com movimentos sutis, dessincronizados. Parece um pouco com o Oscar Schmidt, do basquete, com meio metro a menos e um quilo de charme a mais.
Em seguida, vieram "Alma Matters, Ouija Board, Billy Budd, Now my Heart is Full, Half Person, I Am Hated for Loving, Speedway, Is it Really So Strange?, The More You Know Me, Boxers
Tomorrow, Meat Is Murder, Teachers, November, Break up the Family, Shoplifters e, no bis, My Lost Nightiet. Quando ele deixa a cena, os aparelhos de som soltam My Way, na voz inebriante de Frank Sinatra, e o que sobra é apenas um amontoado de pétalas esmagadas de flores no chão.
O disco de Morrissey que é melhor representado no repertório é realmente o seu mais elaborado, Vauxhall and I", de 1994. São dele as músicas Now My Heart Is Full, The More You Ignore Me" e Speedway". O álbum veio após Your Arsenal" (1992) e marcou a melhor fase da carreira do músico. Dos Smiths, as canções mais esperadas, ele não se faz de rogado e toca várias, como "Is It Really So Strange?, Half a Person, Shoplifters, Meat is Murder"
A banda de Morrissey tem o guitarrista Boz Boorer como o centro das ações. Boorer vem de uma das obsessões cênicas do artista, o mundo rockabilly. Tanto ele quanto o baixista (tatuado até o pescoço) são escolados no mundo do rockabilly. Boorer tocou com The Polecats, Adam Ant, Boz And The Bozmen, Ronnie Dawson, The Deltas, Johns Children, Blubbery Hellbellies
The Shillelagh Sisters e Jet Black Machine.
O outro braço dessa mistura é o também guitarrista Alain Whyte, que vem de grupos como The Memphis Sinners e Born Bad. Ele e Boorer começam o show discretamente, passando quase despercebidos, mas a partir da metade do espetáculo parecem transformar Morrissey no frontman de uma guitar band.Quando o barulho aumenta, o show fica irresistivelmente bom.
Stephen Patrick Morrissey nasceu em Manchester, Inglaterra, em 22 de maio de 1959, filho de uma bibliotecária e um porteiro de hospital. Os pais divorciaram-se em 1966. Instrospectivo e inteligente, Morrissey teve pelo menos um episódio daquela infância registrado em uma música. Trata-se de Suffer Little Children, música dos Smiths que conta a história de três garotos que foram violentamente assassinados em Manchester por um empresário e sua secretária.
"Nunca fui criança", disse Morrissey certa vez, acerca de sua infância. Conta que costumava ler compulsivamente. Seus primeiros trabalhos foram literários, ensaios em fanzines punks e duas biografias, uma do grupo New York Dolls e outra de James Dean. Em 1984, criou a banda The Smiths, talvez um dos maiores símbolos dos anos 80.
Mais do que sua imagem andrógina, ele professava uma atitude ainda mais excêntrica. Dizia-se celibatário. "Constantemente contemplo as pessoas que vivem como casais e, francamente, só vejo almas em agonia", afirmou. "Não conheço nenhuma relação no mundo que tenha sido harmoniosa."
Fardo - Cantando lamentosamente, com gestos de abandono existencial e uma máscara trágica no rosto, o vocalista dos Smiths virou uma espécie de São Sebastião moderno para a comunidade gay. "Sou doente, reprimido e banal", cantava. "Esse homem modificou a minha vida", diz o fã argentino Manoel Morales, que veio de Buenos Aires no mesmo avião que Morrissey para assistir ao show com o namorado.
Morrissey, particularmente, parece ter consciência de que seu comportamento é exemplar para uma geração e carrega seu fardo pelo mundo. Ele professa, segundo bem lembra o jornalista Pablo Plotkin (do diário argentino Pagina 12) o mesmo credo de Oscar Wilde, que escreveu: "Agora sei o que a dor, a mais nobre emoção de que o homem é capaz, é ao mesmo tempo o modelo mais original e a pedra de toque da grande arte."
Morrissey escreve sua trajetória pop com rara independência e um estilo excêntrico. Seu álbum "Maladjusted" foi um fracasso de vendas. Há algum tempo, ele teve de apelar à Justiça contra decisão que o fazia pagar 1,25 milhão de libras de royalties em favor do antigo baterista dos Smiths, Mike Joyce. O juiz do caso o descreveu como "malandro, truculento e de pouca confiança".
Dez pessoas receberam agradecimentos no encarte do primeiro álbum dos Smiths. No fim dos anos 80, Morrissey desentendera-se com todos. Sua ex-assistente pessoal, Jo Slee, diz que ele parece doutrinado a não confiar nas pessoas e é "infantil, muito extremo em suas reações emocionais". Dizem que ele despediu o baixista dos Smiths, Andy Rourke, por meio de um bilhete afixado em seu carro. Quando o vemos no palco, no entanto, nada disso faz a menor diferença. Morrissey é um artista, e de boa cepa. Morrissey. Segunda e terça, às 22 horas. De R$ 60,00 a R$ 100 00. Olympia. Rua Clélia, 1.517, tel. 3675-3999


