MORRENDO COM OS LOBOS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 06 de junho de 2000
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
Caçadores são homens que procuram matar aquilo que não possuem. Matam por inveja, por desejarem o que o animal representa. O escritor Jack London (1876-1916) afirmava que, no caso dos caçadores de lobos, a procura é pela liberdade. Matam lobos porque esses animais representam a liberdade selvagem, uma liberdade que os homens não conseguem alcançar e, por isso, eliminam o ser que a representa.
Matar um lobo não seria simplesmente matar um animal, mas matar uma liberdade que nunca pode ser alcançada pelo homem. Elimina-se, simbolicamente, o problema pela raiz: assassina-se o objeto do desejo para que o próprio desejo deixe de existir. Mas as coisas não ocorrem da maneira como os caçadores acreditam. Isso porque o desejo não está no objeto, mas no próprio desejo.
Esse princípio pode ser aplicado em A Armadilha romance do escritor norte-americano Nicholas Evans lançado pela Editora Rocco. O autor focaliza uma temática recente na literatura contemporânea, o conflito de fazendeiros que querem ficar livres dos lobos que atacam o gado e ecologistas que desejam que os lobos vivam livres da ameaça da extinção. Cada grupo, ao seu modo, desloca para os animais os próprios problemas e descontentamentos existenciais.
Nicholas Evans, que se tornou mundialmente conhecido após seu livro O Encantador de Cavalos ter sido transformado em filme por Robert Redford, apresenta um história onde a harmonia entre homem e natureza, bem como a harmonia entre os próprios homens, é uma aspiração coberta de impossibilidades. Todas as tentativas nesse sentido culminam num certo fracasso onde o aprendizado através da dor se manifesta como única possibilidade.
A Armadilha narra a história de um pequeno povoado chamado Esperança situado na região selvagem das Montanhas Rochosas da América do Norte. O povoado foi um pólo de caça na primeira metade do século, onde milhares de animais silvestres foram abatidos, entre eles todos os lobos da região que foram considerados praticamente extintos.
Tudo começa quando, nos dias de hoje, uma matilha de lobos volta ao lugar de seus antepassados e acaba se alimentando de bezerros das fazendas do local. Revoltados, os fazendeiros dão início a uma guerra contra os animais selvagens mas esbarram nas novas condições legais, os lobos agora estão protegidos por lei e matá-los é considerado crime.
Uma bióloga especialista em lobos, chamada Helen, é contratada pelos órgãos governamentais para monitoramento da matilha e passa a ser considerada inimiga da cidade. Para piorar a situação, Luke, jovem herdeiro do mais influentes criadores de gado do local, decide apoiar a preservação dos animais. O conflito entre uma geração que cresceu matando lobos e outra mais jovem que cresceu amando os lobos, assume maiores projeções com o embate entre relações autoritárias pautadas pela mesquinhez e relações amorosas pautadas pelo bem comum.
Nascido em 1950, Nicholas Evans constrói personagens representativos associados a vários pólos do comportamento humano. Um pai autoritário que vive traindo a esposa e exigindo o máximo dos filhos, uma mãe protetora que sacrificou a amor próprio em nome de um casamento, um filho que sofre com o peso que lhe jogam nas costas querendo que seja aquilo que não é, uma mulher que nunca conseguiu ter um relacionamento amoroso realmente verdadeiro, um caçador profissional arrependido de ter provocado a morte de milhares de animais, etc. Ao lado disso tudo, lobos querendo simplesmente levar suas vidas livremente, caçando, acasalando e uivando para a noite.
Apesar de A Armadilha ser um romance recheado de encaminhamentos previsíveis, possui honestidade em sua mensagem. Mesmo com dificuldade do amor despindo-se de impossibilidade, a narrativa acaba com ares de tragédia. A situação limite em que cada personagem passa a refletir sobre suas vidas e planeja uma mudança impulsionada pela dor. Os homens sobrevivem, mas os lobos não são dotados da mesma sorte, são tão inconscientemente invejados que não merecem existir. Isso porque a existência dos lobos vivendo em pleno exercício de liberdade, seja de uma forma ou de outra, sempre deixará os homens ressentidos.
A liberdade, apesar de todas suas dificuldades, sempre será mais respeitada, e invejada segundo Jack London, do que a escravidão. No fundo, os homens não toleram a liberdade dos animais porque se sentem escravos subjetivos de algo que não conseguem distinguir com exatidão. Algo que no fundo não pode ser resumido numa única palavra, nem num único livro.
A Armadilha de Nicholas Evans, Editora Rocco, tradução de Léa Viveiros de Castro, 406 páginas, R$ 36,00.


