Morrem escritores Eduardo Galeano e Günter Grass
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segunda-feira, 13 de abril de 2015
Ubiratan Brasil<br> Agência Estado 
São Paulo - Ensaísta, historiador e ficcionista, o uruguaio Eduardo Galeano faleceu ontem, perto das 9h, em Montevidéu. Estava com 74 anos. Um câncer no mediastino (região da cavidade torácica) entrou em metástase, causando a morte.
Autor de obras referenciais, como "As Veias Abertas da América Latina" (1971) e "Memória de Fogo" (1982-86), Galeano gostava de transcender gêneros ortodoxos, combinando narrativa documental, jornalismo, análise histórica e política. O que os une é sua obsessão pela memória, "sobretudo a dos condenados ao esquecimento".
Galeano será principalmente lembrado por sua principal obra, "As Veias Abertas da América Latina", que marcou a literatura e a resistência do continente. Ali, ele impunha uma questão primordial naqueles anos 1970: o subdesenvolvimento é uma etapa no caminho do desenvolvimento ou é consequência do desenvolvimento alheio? "Uma criança e um anão se parecem, mas não são a mesma coisa", disse ele ao Estado em 2005, quando refletiu sobre aquela obra. "Não estamos vivendo a infância do capitalismo, somos um produto deformado do desenvolvimento alheio. Não há nenhuma riqueza que seja inocente da pobreza dos outros. O abismo que separa os que têm dos que necessitam é hoje muito maior do que quando eu escrevi o livro."
"As Veias Abertas..." analisa a história da América Latina desde o período colonial até a contemporaneidade, argumentando contra o que considera como exploração econômica e política do povo latino-americano primeiro pela Europa e depois pelos Estados Unidos. O livro tornou-se um clássico entre os membros da esquerda latino-americana.
Apesar de sempre ser badalado por esse livro, Galeano revelou-se cético diante da própria obra. "Depois de tantos anos, já não me sinto mais ligado a esse texto", disse o escritor em 2014, em Brasília, durante a 2ª Bienal do Livro e da Leitura. "O tempo passou e descobri diferentes maneiras de conhecer e de me aprofundar na realidade. Considero uma etapa superada. Se eu relesse a obra hoje, cairia desmaiado, não iria aguentar", completou, em tom de brincadeira. "Para mim, essa prosa da esquerda tradicional é extremamente árida, e meu físico já não a tolera."
Morreu ontem, aos 87 anos, o Prêmio Nobel de Literatura alemão Günter Grass, autor de obras como "O Tambor". Homem de esquerda, polêmico, que nunca deixou de confrontar o país com seu passado nazista, Grass foi o escritor alemão mais conhecido no exterior na segunda metade do século 20. Entre suas obras estão "A Ratazana", "Passo de Caranguejo", "Meu Século" e "Um Campo Vasto".
Seu livro mais famoso, "O Tambor", foi adaptado para o cinema em 1979 por Volker Schloendorff e premiado com a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de filme em língua estrangeira.
O presidente alemão Joachin Gauck ofereceu suas condolências à família do escritor e à sua viúva, Ute Grass. "Günter Grass moveu os alemães, cativou-os e os fez refletir sobre sua literatura e sua arte", afirmou em comunicado. O escritor britânico Salman Rushdie expressou sua "tristeza": "Era um verdadeiro gigante, um inspirador, um amigo".
Grass era filho de uma mãe de origem da minoria eslava da Prússia e de um humilde comerciante alemão. Após a queda do regime de Hitler, testemunhou o declínio da Alemanha e depois o milagre da reconstrução em uma República Federal anticomunista e materialista. Depois de estudar para ser escultor, morou em Paris nos anos 1950 e decidiu iniciar a carreira de escritor. Grass se comprometeu com a causa dos escritores antifascistas do "Grupo 47" e do social-democrata Willy Brandt.
Quando anunciou o Nobel, a Academia de Estocolmo considerou que a obra de Grass realizou "uma ampla revisão da História recordando o que havia sido negado e esquecido: as vítimas, os perdedores e as mentiras que as pessoas querem esquecer porque acreditaram nelas um dia". Em "Passo de Caranguejo" (2002) ele citou o tabu dos sofrimentos dos refugiados alemães capturados pelo exército vermelho nos territórios do leste. (Com Agências)


