Morre um Nobel de literatura
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 18 de janeiro de 2002
Agência Folha 
O escritor espanhol Camilo José Cela, ganhador do Nobel em 1989, morreu ontem pela manhã em Madri, aos 85 anos. Segundo a clínica Cemtro, onde o autor se internara para exames, na noite de terça, Cela morreu de uma insuficiência cardíaca, causada por uma doença cardiorrespiratória crônica em fase terminal.
Cela iniciou a carreira literária aos 23 anos, com o livro de poemas Pisando la Dudosa Luz del Día (editado somente em 45), com traços surrealistas. A primeira obra em prosa, A Família de Pascual Duarte, foi escrita e lançada em 42 e se tornaria o romance espanhol mais traduzido depois do Dom Quixote, de Cervantes. Era sua obra mais famosa, junto com A Colméia (51).
O escritor chegou a publicar mais de 70 títulos, em gêneros que incluem também o ensaio e teatro, além de ter obras adaptadas para o cinema. Antes de dedicar-se à literatura, porém, teve uma formação atribulada.
Na infância, foi expulso de quatro colégios e chegou a ingressar em três cursos universitários - direito, medicina e filosofia e letras - sem concluir nenhum. Foi toureiro, pintor, ator de cinema e soldado, tendo lutado na Guerra Civil Espanhola.
Cela se tornaria uma das figuras mais controversas da literatura espanhola - registram-se episódios em que se manifestou publicamente contra homossexuais, além de ter sido acusado de plágio, em questões judiciais que foram até o ano passado.
Os tumultos envolvendo seu nome já se prenuciavam no início de sua carreira literária. Antes de ser traduzido para mais de 20 idiomas, A Família de Pascual Duarte, foi recusado por vários editores, que viam chances de o livro ser censurado. O autor foi até mesmo aconselhado a deixar o ofício, mas foi justamente então que resolveu dedicar-se a ele.
Chegou a trabalhar como censor em 1943, o que não impediu que a segunda edição de A Família de Pascual Duarte fosse retirada das livrarias no mesmo ano e que A Colméia tivesse tido que sair primeiro na Argentina, pois fora proibida na Espanha.
Membro da Real Academia Espanhola desde 1957, somente na década de 80 Cela começaria a angariar prêmios importantes. O primeiro deles, em 84, foi o Prêmio Nacional de Literatura, por Mazurca para Dois Mortos.
Três anos depois, seria a vez do Príncipe de Asturias e, no fim da década, viria o Nobel, por sua prosa rica e intensa, mostrando, com paixão controlada, uma visão provocadora da realidade humana.
Cela, que há cinco anos usava um marcapasso, tinha problemas respiratórios desde a juventude (teve tuberculose) e vinha cancelando compromissos por motivos de saúde. Uma de suas últimas aparições foi em 12 de dezembro, no anúncio do Prêmio Cervantes (dado ao colombiano Alvaro Mutis), de que foi jurado.
Ainda assim, segundo sua viúva, Marina Castanho, 45, Cela trabalhou até a tarde de sua internação - realizada a pedido de seu médico, para exames.
Cela não chegou a saber da gravidade de seu estado: o escritor passou suas últimas horas em coma, tendo falado pela última vez, com dificuldades, na mesma terça. Os médicos teriam alertado sua mulher de que o quadro era irreversível, mas ela preferiu não divulgar a situação.
O corpo de Cela deve ser enterrado hoje na sua cidade natal, Iria Flavia (La Coruña), sob uma oliveira, como era seu desejo.


