MORRE O POETA DO OLHAR
Nelson Sato
De Londrina
O coração de Haruo Ohara parou de bater. O fotógrafo londrinense, de 89 anos, morreu na manhã de ontem (às 5h30) de complicações cardíacas, vasculares e pulmonares. Ohara era um fotógrafo-artista. No ano passado deixou muita gente de queixo caído com a exposição Olhares, sua primeira individual em décadas de atividade.
A mostra, que teve curadoria de Rodrigo Garcia Lopes, foi uma das principais atrações paralelas do Festival Internacional de Teatro (Filo) de Londrina e um dos destaques da II Bienal Internacional de Fotografia de Curitiba. A exposição trouxe à luz uma pequena parte de seu acervo de mais de 12 mil fotos em preto-e-branco.
Seu último trabalho data de 1994, quando fez uma catalogação das flores das ruas de Londrina numa série de fotos coloridas. Ohara nasceu em Kochi (ilha de Shikoku, Japão). Desembarcou com a família no Brasil em 1927. Seu pai, Massaharu, foi o primeiro comprador de lotes da Companhia de Terras Norte do Paraná, em Londrina.
Começou a fotografar no ano de seu casamento, em 1934. Foi meu pai que fotografou a cerimônia, lembra o fotógrafo lambe-lambe Luiz Juliani, lamentando sua morte. José Juliani, o pai, foi um mestre para Ohara. Nos anos 50, era ele quem mais incentivava o discípulo nas reuniões do Foto Clube de Londrina.
Foi a época em que teve vários trabalhos incluídos em mostras coletivas de salões internacionais da Europa. Haruo mantinha seu laboratório num cubículo debaixo da escada de sua casa, onde passava horas revelando as fotos. Gostava de caminhar pela cidade e jogar conversar fora com os amigos. Nos primeiros anos dessa década, frequentava quase que diariamente o ponto do lambe-lambe de Juliani, localizado entre o Bosque e a Catedral.
Ele sempre dava uma passada por aqui. Conversávamos sobre fotografia e coisas do dia-a-dia. Depois que os problemas de saúde se agravaram, ele deixou de sair de casa conta. A última vez que o viu foi há seis meses. Fui devolver a revista da exposição que ele havia me emprestado, e ele já não estava bem. Me atendeu falando em japonês.
Ohara tinha a fotografia como um hobby. Ganhava a vida como agricultor. Por isso, registrou várias imagens do campo para onde carregava a câmera e o tripé junto com a enxada e a plantadeira manual. A exposição do ano passado mostrou essa temática rural, mas revelou também composições experimentais e trabalhos onde Haruo se apresenta como um poeta do olhar.
Ele é um dos grandes nomes da fotografia nacional diz o poeta Maurício Arruda Mendonça, um dos admiradores de sua obra. Não era apenas um talento espontâneo, um espírito zen. Ele pesquisava a linguagem, tinha muita técnica e um nível de exigência artística muito grande. Nas fotos em que documentou a história da cidade, o fez com olhar poético. Era um fotógrafo bastante informado.
Também lamentando a morte do artista, a diretora do Festival Internacional de Teatro, Nitis Jacon, lembra da satisfação que foi abrigar a exposição de Ohara no Filo do ano passado. Nossas famílias se conheciam há anos diz. Fui colega de quarto da filha dele, na Casa do Estudante de Curitiba. O fato de resgatar sua obra e montar sua primeira mostra individual representou uma honra e uma alegria muito grandes. A exposição foi inclusive uma prévia para o festival de todas as artes que estamos programando para o próximo ano.
Haruo Ohara teve 9 filhos. Seu corpo será sepultado hoje às 8 horas no cemitério São Pedro.O fotógrafo Haruo Ohara morreu na madrugada de ontem em Londrina deixando
um acervo de 12 mil fotos
Arquivo FolhaHaruo Ohara olha suas fotos expostas em Londrina no ano passado: ele tinha a fotografia como hobbyArquivo FolhaFoto de Haruo Ohara presente na exposição organizada durante o FILO em 98: registro poético do trabalho no campo





