France PresseJacques-Yves Cousteau: de explorador dos mares a imortal da Academia Francesa de Letras, uma vida de aventuras e famaO oceanógrafo francês Jacques-Yves Cousteau revelou e explorou um mundo submarino mais fantástico que qualquer coisa prevista pelo escritor de ficção científica do século XIX Júlio Verne.
Ele morreu ontem, aos 87 anos, em Paris. ‘‘O capitão Jacques-Yves Cousteau foi para o mundo do silêncio’’, disseram os porta-vozes da fundação que leva seu nome. Sempre enfiado no seu capote azul-marinho, marca registrada, o capitão Cousteau se tornou figura familiar através de seus livros e filmes.
Particularmente famosa ficou a série feita para a TV sob patrocínio norte-americano, chamada ‘‘O Mundo Submarino de Jacques Cousteau’’, que foi ao ar pela primeira vez em 1965.
Membro da prestigiada Academia Francesa desde 1988 e um dos franceses mais populares, ele lutou vigorosamente contra a poluição marinha, e se juntou aos protestos internacionais contra os testes nucleares franceses no sul do Pacífico, em 1995.
Cousteau fez cruzadas pela proteção ambiental da Antártica, ao rio Amazonas, às profundezas dos oceanos. Em 1978 ele gastou US$ 900 mil numa pesquisa sobre despejos tóxicos no Mediterrâneo.
Ele disse aos repórteres que havia parado de nadar no mar de Mônaco porque estava poluído demais. Vinte anos antes ele nadava nesse mesmo mar diariamente. ‘‘Eu não tenho tempo de ir a 12 ou 13 milhas mar adentro para encontrar água limpa’’, lamentou o pesquisador.
Com seu laboratório marinho a bordo do Calypso, navio caça-minas britânico especialmente adaptado, ele esteve nos oceanos do planeta.
Homens ao marUma das descobertas mais incríveis de Cousteau aconteceu em 1962, quando ele montou a primeira estação subaquática tripulada do mundo, na placa continental próxima de Marselha, na França. Dois homens permaneceram na casa submarina batizada ‘‘Diogenes’’ sem subir à superfície por mais de uma semana.
Sua invenção mais recente foi um veículo marinho movido a vento, dotado de aparelhos semelhantes a chaminés, que sugavam correntes de ar e as redirecionavam através de dutos e turbinas, que propeliam o barco à frente.
A primeira vez que ele navegou numa embarcação assim, o ‘‘Windmill’’ (moinho-de-vento, em inglês), de 42 toneladas, em outubro de 1983, um temporal o deixou encalhado no meio do Atlântico. Mas ele embarcou novamente em maio de 1995, para uma viagem de dois anos e meio, numa nova versão do barco, batizada ‘‘Alcyone’’, em homenagem ao filho do deus grego do vento.
Cousteau disse que seu sistema de propulsão, que não usa combustível ou velas, poderia economizar 40% de combustível em navios cargueiros e ajudaria a revolucionar o transporte marinho do futuro.
Nascido a 11 de junho de 1917, na região do sudoeste da França chamada Bordeaux, terra vinícola, Jacques-Yves Cousteau passou sua infância em Paris e Nova York, e estudou na academia naval em Brest.
Aos nove anos ele ganhou uma câmara de filmar rudimentar, o primeiro passo para uma ilustre carreira cinematográfica que lhe rendeu três Oscars e três prêmios do festival de cinema de Cannes.
O mistério do mar fascinou o então jovem oficial naval pela primeira vez na Indochina, quando ele observou um pescador chinês mergulhar sem aparelhos de respiração ou mesmo armas, para capturar os peixes.
Exceto pelos anos passados na Resistência, Cousteau foi oficial da Marinha de 1930 a 1950, quando ele deu baixa do serviço e começou estudos oceanográficos sérios no Calypso.
Em 1943, Cousteau e Emile Gagnan, engenheiro francês, construíram a primeira roupa de mergulho operacional, que permitia aos mergulhadores deixar de lado os pesados capacetes dos escafandros e nadar livremente por mais de duas horas.
Sua equipe de mergulhadores desenterraram no fundo do mar os restos de um antigo navio grego mercante de vinho, em 1952, trazendo à tona milhares de valiosas cerâmicas, nas costas de Marselha.
Trabalho e ecologiaEle e seu filho Jean-Michel fizeram uma expedição de 11 meses em 1982 ao rio Amazonas, para documentar a fauna e flora selvagens.
Cousteau via o acúmulo de lixo tóxico não degradável como o maior perigo para os oceanos na próxima década. ‘‘Não temos o direito de por esse lixo em contato com o sistema de águas. É um genocídio a prazo’’, declarou o pesquisador.
Ele tinha dois filhos, Jean-Michel e Jean-Philippe, de sua ex-mulher Simone. Philippe morreu em Portugal, quando um aerobarco que ele pilotava capotou. Cousteau casou de novo em 1991.
Em 1995 ele processou Jean-Michel por usar o nome Cousteau para fazer propaganda de um balneário nas Ilhas Fiji. O caso terminou com o filho adicionando o primeiro nome ao balneário, para evitar confusão com a Sociedade Cousteau, um grupo ambiental sem fins lucrativos.
Entre os filmes mais notáveis de Cousteau estão ‘‘O Mundo Silencioso’’, ‘‘O Mundo Sem Sol’’ e ‘‘O Peixe Dourado’’. Entre os livros, ‘‘A Viagem do Calypso’’ e ‘‘Sob 18 Metros d’Água’’.
Perguntado aos 71 anos se ele estava ficando velho demais para mergulhar, ele respondeu: ‘‘a idade não conta... Afinal, meu pai começou a mergulhar com 67 anos’’. Jacques Costeau está sendo velado na Catedral de Notre Dame, em Paris, e será enterrado na segunda-feira.

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