São Paulo - O autor húngaro Imre Kertész, Nobel de Literatura em 2002, morreu ontem, aos 86 anos, em sua casa em Budapeste. Kertész morreu durante a madrugada após uma "longa batalha contra uma doença", declarou Krisztian Nyary, editor da Magveto Publishing, que publica as obras do escritor na Hungria. A causa da morte não foi divulgada.
Nascido em 9 de novembro de 1929, em Budapeste, Kertész foi o primeiro autor em língua húngara a vencer o Nobel. "Kertész foi um dos escritores húngaros mais influentes do século 20, não apenas por sua obra (...) mas também por seu pensamento e sua visão de mundo. Seguirá sendo uma grande influência na literatura nos próximos anos", disse Nyary.
Judeu, Kertész sobreviveu aos campos de concentração nazistas de Auschwitz-Birkenau (Polônia) e Buchenwald (Alemanha), para onde foi aos 14 anos, durante a Segunda Guerra Mundial. Foi essa experiência que inspirou seu livro mais famoso, "Sem Destino" (1975), publicado no Brasil pela Planeta.
Segundo o júri do Nobel, essa obra "traça a frágil experiência do indivíduo contra a bárbara arbitrariedade da história, e defende o pensamento individual contra a submissão ao poder político".
A Academia Sueca, que concede o prêmio, também destacou que Kertész se diferenciava dos demais escritores do Holocausto por não retratar os campos de concentração com ultraje. "O romance utiliza o dispositivo alienante de banalizar completamente a realidade dos campos, como uma existência cotidiana feito qualquer outra", escreveu um júri à época do prêmio.
Depois da Segunda Guerra, Kertész voltou para seu país, dessa vez sob domínio soviético - e começou a traduzir Nietzsche, Freud e Wittgenstein, entre outros autores. Influenciado pelo existencialismo francês, tinha como tema o destino do homem em ambientes totalitários.
Antes de ganhar o Nobel, enfrentou décadas de anonimato, até por ser visto com desconfiança pelo regime comunista húngaro. O autor chegou a dizer que "Sem Destino" era sobre o regime de Janos Kadar, ditador que dominou o país de 1956 a 1988.
"Estar muito perto da morte também é uma forma de felicidade. Apenas sobreviver já é a maior liberdade de todas", afirmou em entrevista, sobre os campos de concentração.
Há uma série de livros de Imre Kertész publicados no Brasil, como "Kadish - Por Uma Criança Não Nascida" (Imago), "A Língua Exilada" (Companhia das Letras) e "História Policial" (Tordesilhas), entre outros.

mockup