Morre em SP, aos 82 anos, Décio de Almeida Prado; um dos mais importantes críticos do teatro do País
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 04 de fevereiro de 2000
Por Beth Néspoli 
São Paulo, 04 (AE) - Morreu na madrugada de hoje, de enfarte, em sua casa no Pacaembu, o crítico, ensaísta e historiador Décio de Almeida Prado. Crítico teatral do jornal "O Estado de S.Paulo" entre 1946 e 1968 e diretor, durante dez anos, de 1956 a 1966, do "Suplemento Literário" do "Estado" - um dos cadernos literários mais expressivos da vida cultural brasileira de todos os tempos -, Décio estava com 82 anos. Tinha dez livros publicados, o mais recente "História Concisa do Teatro Brasileiro", editado no ano passado, pela Edusp.
Embora ultimamente saísse pouco de casa, Décio nunca deixou de manter-se informado sobre o panorama teatral brasileiro. "Converso sempre com Sábato Magaldi (amigo e ex-crítico teatral do Estado), que me mantém a par do cenário teatral", afirmou em entrevista ao "Estado", ano passado. Nascido em 14 de agosto de 1917 em São Paulo, formou-se em Filosofia e Ciências Sociais pela USP, em 1938 e, pela mesma universidade, em Direito, em 1941. Nesse mesmo ano, o jornalista Alfredo Mesquita decidiu fundar a revista cultural "Clima" e convidou o jovem Décio para ser o crítico teatral da publicação. A revista durou três anos e teve 16 números.
"A partir do terceiro número, a revista foi feita praticamente por Décio e sua mulher, Ruth, ajudados por alguns de nós, tendo a casa deles, na Rua Itambé, como redação", lembrou o crítico literário e companheiro da "Clima" Antonio Cândido, numa sessão de homenagem a Décio, realizada na Biblioteca Mário de Andrade em 1994 e publicada pela editora Scortecci.
Homem de fidelidades - "A eles se deveram, portanto, a continuidade e a regularidade de "Clima" e, se menciono esse fato, é para destacar um traço da personalidade de Décio: a constância nas dedicações, pois ele não é um homem de compromissos passageiros, mas um homem de fidelidades", concluiu Antonio Cândido.
Fidelidade ao teatro brasileiro mantida a vida inteira, ainda que nunca tenha planejado tornar-se crítico desse gênero de arte. "Eu queria mesmo ser crítico de literatura, mas Alfredo Mesquita convidou-me para escrever sobre teatro, pois para a literatura já havia o Antonio Cândido", afirmou Décio em entrevista ao "Estado".
Dois anos depois do fim da resvista "Clima", o mesmo Alfredo Mesquita chamou Décio para ser o crítico do "Estado". Escrevendo num momento de profunda renovação no teatro brasileiro - na passagem do teatro centrado na figura do grande ator para o espetáculo no qual todos os elementos se harmonizam sob a batuta do diretor -, fez uma crítica de contundente militância em favor da modernidade nos palcos nacionais, sem jamais perder a elegância e o humor.
"Vivi um momento privilegiado no teatro brasileiro", afirmou Décio em entrevista ao "Estado" no ano passado, por ocasião do lançamento de "História Concisa do Teatro Brasileiro". "Vi surgir o teatro moderno enquanto escrevia na revista "Clima" (o marco oficial é a estréia da peça Vestido de Noiva, de Nélson Rodrigues, com direção do polonês Ziembinski, em 1943) e acompanhei sua evolução como crítico do Estado".
Ele acompanhou a passagem dos amadores - origem da renovação - a profissionais, reunidos no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), a companhia fundada por Franco Zampari, a primeira estável a surgir sob os moldes da nova estética teatral. Viu surgir e seguiu de perto a trajetória não só do TBC como do Teatro de Arena, do Teatro Oficina e de todas as companhias criadas por artistas saídos do TBC, como Tônia Carrero, Cacilda Becker, Sérgio Cardoso, Sérgio Britto, Fernanda Montenegro e muitos outros.
Décio não só testemunhou como interferiu na evolução do teatro nacional. "Os artistas não dormiam na véspera da publicação da crítica do Décio; ficavam até tarde no bar esperando para comprar o jornal de madrugada, tal a importância de sua avalição", lembrou o diretor, ator e jornalista Oswaldo Mendes, que trabalhou no jornal "Última Hora". "Uma crítica positiva do Décio era a consagração e, caso contrário, motivo não só para tristeza como para uma reavaliação da montagem".
Apesar da natural frustração causada por um crítica negativa - e o profissional não as economizou quando julgou necessário -, Décio jamais perdeu o respeito e a admiração dos artistas que a ele creditavam mais que conhecimento do ofício: qualidades como ser humano. "A retidão de caráter juntou-se às outras qualidades consolidadoras do respeito que sempre cercou a figura pública de Décio", afirmou Sábato Magaldi. Livros - Seria possível traçar um panorama do teatro brasileiro apenas a partir da seleção de críticas publicadas no "Estado" e editadas em três livros: "Apresentação do Teatro Brasileiro" (1947/1955), Martins; "Teatro em Progresso", (1955/1964) e "Exercício Findo" (1964/1968), Perspectiva. Mas a contribuição de Décio não se limitou à crítica de espetáculos.
Ao abandonar o jornalismo, em 1968, indicando para seu lugar o aluno e amigo Sábato Magaldi, iniciou uma sólida produção ensaística, que resultou em edições de leitura obrigatória para qualquer profissional ligado ao teatro: "João Caetano", Perspectiva, 1964; "João Caetano e a Arte do Ator", ática, 1984; "Procópio Ferreira", Brasiliense, 1984; "O Teatro Brasileiro Moderno", Perspectiva, 1988; "Peças, Pessoas e Personagens", Companhia das Letras, 1993; "O Teatro de Anchieta a Alencar", Perspectiva, 1993; e "História Concisa do Teatro Brasileiro", Edusp, 1999.
Em sua última entrevista ao "Estado", em sua casa no Pacaembu, afirmou estar encerrando sua produção ensaística. "Agora quero ler os romances de Victor Hugo por puro prazer".


