Zygmunt Bauman situava-se num cruzamento entre a sociologia, filosofia e psicologia
Zygmunt Bauman situava-se num cruzamento entre a sociologia, filosofia e psicologia | Foto: Michael Cizek/ AFP



Morreu na segunda-feira (9), aos 91 anos, em Leeds, na Inglaterra, um dos intelectuais mais pop da atualidade, considerado o "profeta da pós-modernidade".
Espécie de grife da sociologia, o polonês Zygmunt Bauman se consolidou como um dos mais influentes pensadores da virada do século 20 para o 21 a partir da criação da metáfora da "liquidez", que aplicou à sociedade, à vida, ao medo e até à arte do mundo pós-industrial.
Desde os anos 1960, segundo Bauman, a aceleração das mudanças tecnológicas e sociais aprofundou a mobilidade e a individualidade, alterando a noção de identidade e as relações econômicas, políticas, afetivas e profissionais, marcadas desde então por uma crescente fluidez.
Nestas sociedades "líquidas", em que a ausência do sentido de solidez e estabilidade é agravada pela globalização, pela internet e pelo consumismo, o ser humano se tornou mais autônomo, mas passou a conviver com incertezas e ansiedade.
A pressão por mudanças constantes, dizia ele, favoreceria uma cultura do esquecimento - raiz da atual ideia de pós-verdade, promovida também pela capacidade de armazenamento das tecnologias digitais, que desobrigaria os indivíduos a cultivar a memória.
As consequências, alertava o sociólogo, são morais e envolvem a sensação de desconhecimento e de impotência do homem e o status provisório de tudo.
Assim, seus livros baseados no conceito de "modernidade líquida" falaram às mentes e corações dos leitores comuns, popularizando, para além dos muros da academia, um tema complexo como a pós-modernidade.
Eclético, Baumann é situado num cruzamento entre sociologia, filosofia e psicologia. Escreveu mais de 70 livros - mais de um por ano desde o início de sua vida acadêmica- sobre temas tão diversos como moral, nazismo, consumismo e programas televisivos de reality show.

NAZISMO
Judeu nascido em uma família não praticante da Polônia em 1925, Baumann fugiu para a Rússia durante a invasão nazista e lutou em frentes do Exército Vermelho.Foi por meio do livro de memórias de sua mulher, sobrevivente de um gueto de Varsóvia, que Bauman vislumbrou o sofrimento de que escapara.
Quatro anos depois da publicação de "Inverno na Manhã" (ed. Zahar), de Janina Bauman, o sociólogo lançou sua análise original sobre o tema em "Modernidade e o Holocausto" (ed. Zahar), alvo de controvérsia ao ser interpretado como um atenuante para a Alemanha nazista.

Terminada a Segunda Guerra, Bauman retornou à Polônia como oficial do Exército Vermelho e atuou em unidades militares de inteligência, tendo sido um entusiasta afiliado do Partido Comunista polonês. Ele estudou sociologia e filosofia em Varsóvia, onde se tornou professor na universidade. Aos poucos se tornou crítico do regime socialista soviético, o que colaborou para que ele e sua família fugissem da Polônia durante uma perseguição antissemita promovida pelo governo comunista em 1968.A família imigrou para Israel junto a outros intelectuais judeus poloneses. Mas, três anos depois, em 1971, eles se mudaram para Leeds, no Reino Unido, onde Bauman se tornou chefe do departamento de sociologia, do qual se aposentaria em 1990. Deixa a mulher e três filhas.

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