Morre a ''Diva do Fado''
France Press, Agência Estado e Redação
A cantora portuguesa Amália Rodrigues, considerada a grande diva do fado, morreu ontem, em Lisboa, aos 79 anos de idade. O anúncio foi feito por sua gravadora, a Valentim de Carvalho, que não precisou a causa da morte até a tarde de ontem. O corpo foi encontrado às oito horas da manhã, em sua residência, localizada no bairro São Bento. O velório estava programado para começar às 15 horas, na Basílica da Estrela. O dia e o horário do enterro também não foram revelados.
Ao ser anunciada sua morte, Portugal inteiro se vestiu de luto, enquanto as emissoras de rádio do país difundiam seus sucessos e as reações de tristeza de seus amigos e admiradores. O primeiro-ministro de Portugal, Antônio Guterres, decretou três dias de luto nacional em virtude do falecimento. Há figuras que são símbolos de um povo. Amália Rodrigues ficará na História de Portugal como um dos símbolos mais marcantes do povo português, disse em nota oficial distribuída à imprensa portuguesa.
Já o presidente da República, Jorge Sampaio, também rendeu suas homenagens a Amália Rodrigues dizendo, entre outros elogios, que ela prestou serviços notáveis ao país. Durante muitas décadas ela foi a identificação de Portugal que nós desejamos ver espalhada pelo mundo, salientou.
Em seus 60 anos de carreira, que oficialmente nunca encerrou, apesar de suas apresentações cada vez mais raras, Amália Rodrigues gravou 170 discos, editados em mais de 30 países, e rodou uma dezena de filmes, o mais conhecido deles é Os Amantes do Tejo (1955), de Henri Verneuil.
Nascida no bairro operário lisboeta de Alcântara, às margens do Tejo, a fadista sempre se orgulhou de sua origem popular. Fazia parte de uma família de dez irmãos, originária do Norte do país. A embaixadora do fado, outro título conferido a ela, estudou muito pouco e começou cedo a ganhar a vida vendendo frutas nas ruas de Lisboa.
Não se sabe com precisão sua data de nascimento: entre 23 de junho e 1º de julho de 1920. Amália nasceu no tempo das cerejas, costumava dizer sua avó materna, que cuidou dela até os 14 anos. Começou sua carreira profissional em junho de 1940 em Retiro da Severa, então a mais importante casa de fado de Lisboa.
Seus primeiros passos na vida artística não foram fáceis. Seus pais e irmãos não queriam que cantasse em público o fado, música maldita e de má reputação na época. Além disso, seu casamento com um guitarrista aos 20 anos não facilitou as coisas, pois sua mãe sonhava em casá-la com um policial, um agente alfandegário ou qualquer outro tipo de empregado que tivesse um salário fixo, contou a própria Amália em sua autobiografia.
Depois, porém, as coisas avançaram muito rapidamente. Sua apresentação no Olympia de Paris, em 1956, pôs em andamento afinal uma fulgurante carreira. Seu sucesso se estendeu pelo mundo todo, do Brasil ao Japão, passando por Estados Unidos e Rússia, graças à sua imponente presença no palco apesar de sua pequena estatura (1,58 m) e a uma voz que nunca deixou de deslumbrar.
Mística e fatalista como o fado, Amália atribuiu sempre seu sucesso à sorte e ao destino. Nunca sonhei com uma carreira, nunca tive ambições, escreveu em suas memórias. Embora nos anos 50 fosse considerada uma das dez mais belas vozes do mundo, Amália Rodrigues sempre demonstrou surpresa com seu próprio sucesso.
Amália Rodrigues cantava sempre vestida de preto. Perfigurava a essência trágica do fado, palavra que quer dizer destino. Seu canto era pungente não apenas pela voz educada e sóbria (em que pesassem os dramas cantados) mas também pela eloquência das mãos, gestos sempre precisos, a completar o que diziam as palavras (Maria Bethânia, que regravou vários clássicos de Amália, aprendeu muito com ela) e pela expressão grave do rosto forte. Minha única política: o fado; minha única revolução: o fado; minha vida: o fado, disse ela certa vez.
A cantora pensou em suicidar-se em 1984 em um hotel de Nova York, convencida de que estava sofrendo de câncer no pulmão, mas abandonou a idéia da morte depois de ver em seu quarto de hotel vários filmes de Fred Astaire, que lhe devolveram o ânimo. Outra sombra em sua vida: depois da Revolução dos Cravos de 1974, foi criticada por ter sido porta-estandarte do regime salazarista.
A última apresentação de Amália Rodrigues aconteceu no ano passado, por ocasião da Exposição Universal de Lisboa, quando cantou alguns de seus maiores sucessos para um público nostálgico.Portugal está de luto. Morreu ontem aos 79 anos, a cantora Amália Rodrigues, a maior intérprete de fado de todos os tempos
France PressAmália Rodrigues costumava dizer: Minha única política: o fado; minha única revolução: o fado; minha vida: o fado





