Mordendo o próprio cotovelo
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de setembro de 1997
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
Douglas MayerDe Sigismund Krzyzanowski sabe-se muito pouco. Quase nada. A própria data de seu nascimento e de sua morte são imprecisas e contraditórias. A única certeza é que nasceu na Rússia na segunda metade do século passado e morreu em meados deste. Fotografia não há nenhuma. Como escritor, publicou pouquíssimos textos em vida. Teve um existência obscura tendo como pano de fundo as grandes transformação da Rússia, dos czares à revolução comunista.
Sua obra seria desconhecida se não fosse a ação de um curioso que colocou as mão em seus textos após sua morte. Eram contos e novelas que revelavam um escritor apurado com histórias instigantes e profundamente sintonizadas com o final do século 20.
Alguns destes textos estão no livro O Marcador de Página lançado pela Editora 34 dentro da Coleção Leste - que já publicou obras dos escritores húngaros István rkény e Dezsö Kosztolányi, além do tcheco Karel Tchápek. São seis contos escritos entre 1926 e 1938, onde Krzyzanowski desenvolve uma arquitetura cerebral com argumentos aluncinantes.
No conto O carvão amarelo, numa época em que escassez de combustível está prestes a levar o mundo ao colapso, um cientista inventa um mecanismo que consegue extrair a energia da raiva dos seres humanos. Um combustível inesgotável. Censores instalados nas ruas, residências, ônibus, bancos e empresas, passam a coletar energia da bile, do ódio, para movimentar indústrias, automóveis e lâmpadas. Os ônibus coletivos trafegavam pelas cidades utilizando apenas a energia da raiva de seus apertados usuários. A raiva passou a ser a mais valiosa das mercadorias, o fígado de cada um tornou-se uma carteira cheia de dinheiro: Os capitalistas abandonaram categoricamente a antiga política de conciliações, de concessões e de todas as medidas que pudessem diminuir o ódio do operariado para com a classe exploradora: havia chegado a época em que o próprio ódio à exploração podia ser explorado industrialmente, capturado nos absorvedores e conduzido para as fábricas e máquinas.
ObsessãoEm O cotovelo que não foi mordido, um conto filosófico, um sujeito passa seus dias trancado em seu quarto tentando morder o próprio cotovelo, algo praticamente impossível. Certo filósofo ao saber da existência do sujeito e sua obsessão, formula uma teoria filosófica em que o cotovelo nunca poderá ser mordido, o princípio da imordibilidade. O sujeito se torna uma personalidade nacional. Colocado em praça pública, dedica-se a conseguir morder o próprio cotovelo num balcão de aposta. O próprio governo, falido, inventa uma loteria federal levando em conta o desafio do sujeito. As coisas assumem proporções monstruosas, revelando como possibilidades e impossibilidades são manipuladas de acordo com os interesses pessoais.
O que surpreende no livro é que todos os textos, sem exceção, são bons. Krzyzanowski acerta em todos. Em O quadraturin, por exemplo, um rapaz é surpreendido por um vendedor em seu pequeno quarto alugado. O vendedor oferece a amostra grátis de um produto que, ao ser passado na parede, amplia o cômodo. O rapaz meio que desacreditado, resolve testar o produto. Os problemas começam quando o quarto começa a se ampliar mais e mais a cada dia, fugindo ao controle de seu ocupante.
MetaliteraturaO Marcador de Página, novela que dá título ao livro, é composto por histórias dentro da história principal numa metaliteratura borgeana. O personagem de destaque é um homem que anda pelas ruas procurando ou inventando argumentos literários, o caçador de temas. Possui idéias para mil histórias mas não escreve nenhuma delas.
Dentro da pupila narra a história de vários homens reduzidos ao tamanho de milímetros que vivem aprisionados num poço escuro dentro de uma mulher. São os homem que amaram a mulher. Em A décima terceira categoria da razão, Krzyzanowski elabora uma nova categoria da razão além das doze descritas por Kant. Ela nasce de um coveiro meio maluco que precisa lidar com um morto que se recusa a ser enterrado.
O Marcador de Página de Sigismund Krzyzanowski, tradução de Maria Aparecida B. Pereira Soares, Editora 34, 137 páginas, R$ 16,00.


