São Paulo, 11 (AE) - No livro "François Truffaut, Uma Biografia", os críticos Serge Toubiana e Antoine de Baecque desvendam os mistérios de uma vida que conseguiu manter-se secreta, por mais que a obra do diretor seja marcada por grandes sucessos populares. Toubiana e Baecque observam que Truffaut ficou sinceramente surpreso com o fracasso de público de "O Quarto Verde". O filme quase levou ao colapso a produtora Les Films du Carrosse. Salvou Truffaut o fato de, no mesmo ano (1978), ele ter conseguido convencer o amigo Jean-Pierre Léaud a retomar o personagem de Antoine Doinel no que terminou sendo o último filme da série com o alter ego do cineasta - "O Amor em Fuga".
Com este filme, Truffaut conseguiu equilibrar suas finanças. Mas ele não gostava de "O Amor em Fuga". Preferia "O Quarto Verde", que se baseia livremente em textos de Henry James. O filme estréia amanhã (12) na Cinemateca, iniciando a nova fase em que a sala será programada por Leon Cakoff, da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Pode-se considerá-lo realmente como uma estréia, embora o filme não seja inédito na cidade. Passou numa mostra que a própria Cinemateca dedicou a Truffaut, há quatro anos.
Por que Truffaut ficou surpreso com a má receptividade a "O Quarto Verde"? Surpresa seria se o filme tivesse conquistado os espectadores e arrebentado nas bilheterias. Truffaut, o humanista que entrou para a história como o cineasta que amava o amor, nunca foi tão esquisito. É um filme sobre a saudade das coisas mortas, mas ainda vivas na lembrança, e a saudade das coisas vivas, mas já desaparecidas na memória.
Truffaut queria fazer 30 filmes. Teve tempo de rodar somente 22 antes de morrer, aos 52 anos, em 1984. Sua urgência de amar e viver talvez tivesse origem numa intuição de que morreria cedo. Preocupava-o a morte. É o tema de "O Quarto Verde", com seus círios e o cortejo de desaparecidos. O próprio Truffaut interpreta o papel principal, aparecendo como Julien Davenne, redator de obituários num jornal de província.
A ação passa-se dez anos depois do fim da 1.ª Guerra e Davenne ainda permanece obcecado pela morte de seus amigos nas trincheiras. De forma ainda mais intensa, pessoal e dolorosa, permanece ligado à mulher que morreu. Para ela erigiu uma espécie de templo - o quarto de sua casa repleto de círios e de imagens da falecida, além de uma escultura de sua mão, na qual, no que seria o dia do aniversário da morta, ele deposita um anel.
Davenne envolve-se com a personagem de Nathalie Baye. Inicia-a no culto aos mortos, mas não consegue suportar a idéia de que, no passado, ela tenha sido mulher justamente do homem que o fez perder a confiança nos vivos. Há algo da literatura de Poe no filme - a busca de uma plenitude que só existe na morte e na lembrança. Encerra um convite de Truffaut para que o público o acompanhe no que tem um nome - morbidez. É difícil avaliar o efeito catártico que o filme pode ter tido sobre o diretor, mas cabe destacar que o liberou para fazer "O Amor em Fuga" e "O Último Metrô", que são filmes comprometidos com a vida.

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