Brigas gratuitas entre grupos de jovens, guerras sem motivos concretos, assassinatos, estupros e genocídios. As razões e causas destes exemplos de violência e agressividade humana ainda são uma incógnita. Os pesquisadores Richard Wrangham - da Universidade de Harvard e diretor do Projeto Kibale sobre chimpanzés em Uganda - e Dale Peterson, da Tufts University, propõem respostas científicas para entender a violência humana em ‘‘O Macho Demoníaco - As Origens da Agressividade Humana’’. Os dois autores buscam nos macacos - o animal socialmente mais parecido com o ser humano - manifestações violentas da espécie, comparando-as com atitudes também agressivas dos homens.
O livro já começa de forma objetiva, com Wrangham e Peterson chegando ao Burundi, país da África Central, com uma missão: pesquisar o comportamento dos bonobos - a única espécime de símio que ainda não havia sido estudada. Já neste início, os autores aproveitam a chegada à África e fazem um paralelo sobre a pesquisa e os exemplos da violência humana. Eles descrevem os conflitos étnicos que assolam o continente africano em países como Ruanda, Burundi e Congo - ex-Zaire - como quem quer explicar a verdadeira razão para as matanças e genocídios destas guerras.
Para estruturar um raciocínio que pudesse dar uma explicação plausível e científica para esta e outras demonstrações de violência humana, os pesquisadores fizeram um histórico sobre os estudos em cima de macacos. Wrangham e Peterson destacaram os chimpanzés como uma das espécies mais parecidas com os homens no que diz respeito à agressividade. Com base em pesquisas, os dois relatam como estes macacos praticam estupros e infanticídios.
Ao contrário do início objetivo, a partir do segundo capítulo os autores descrevem detalhadamente casos verídicos de violência entre chimpanzés. Como quem conta um romance, eles vão relatando as atitudes e comportamentos destes macacos durante os ataques. Wrangham chega a lamentar o fato de os chimpanzés matarem outros macacos com quem dias antes brincavam e trocavam comida. ‘‘O aspecto mais difícil de aceitar era o fato de que os atacantes conheciam muito bem suas vítimas’’, diz o pesquisador.
A partir deste ponto, os dois passam a traçar uma relação íntima entre a violência dos macacos e a dos homens. Eles ressaltam como chimpanzés, gorilas e seres humanos são dos poucos animais que matam membros da própria espécie. Peterson ressalva as diferenças dos macacos e homens em relação à maioria do reino animal. Segundo o autor, muitos animais caçam bichos de outro grupo para comer. Quando o confronto se dá no mesmo grupo, esses mesmos animais geralmente cessam a luta quando vencem. Os chimpanzés e gorilas, por sua vez, só param quando o oponente morre.
Os autores, então, passam a destacar como os machos, tanto símios como humanos costumam demonstrar uma violência por vezes exacerbada e sistemática. Com base nisso, questionam a teoria de que as guerras são uma atividade tipicamente humana e comparam um grupo de gorilas se aventurando por um vale para espancar um vizinho com milhares de humanos agitando bandeiras e se defrontando com fuzis, gases e tanques. ‘‘Há indícios de que a violência na forma da cometida pelos chimpanzés precedeu a guerra humana’’, afirma Peterson.
Além de algumas ilustrações de macacos, ‘‘O Macho Demoníaco’’ (466 páginas/R$ 32), lançado pela Objetiva, também traz árvores genealógicas dos macacos, mapas sobre os locais de pesquisas na África e notas sobre citações. Mesmo se perdendo em narrações detalhistas, Wrangham e Peterson mostram de forma eficaz as muitas semelhanças de atitudes hostis de homens e macacos.

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